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Correio de Azeméis

7 May 2026

A coragem de não sobreviver

Opinião

Fanny Martins*

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“Respirar é bem diferente de viver. E viver não pode ser automático. Trata-se de uma escolha diária”

Todos nós já ouvimos histórias de pessoas que alcançaram objetivos financeiros, profissionais e familiares, mas que, ainda assim, descrevem uma sensação de vazio. Assistimos a notícias de suicídio sem que nada o fizesse prever.
Partilho convosco que, todos os anos, cerca de 740 mil pessoas morrem por suicídio no mundo, isto é, uma a cada 40 segundos. Em Portugal, são mais de mil vidas perdidas por ano, cerca de três por dia. Uma realidade silenciosa, multifatorial e que ainda é profundamente subestimada.
A evidência científica reforça esta realidade. De acordo com a World Health Organization, o suicídio é uma das principais causas de morte a nível mundial, estando frequentemente associado a fatores como depressão, ansiedade, isolamento social e ausência de apoio emocional. A mesma entidade sublinha a importância da prevenção, da literacia em saúde mental e do acesso atempado a cuidados como pilares fundamentais para reduzir este fenómeno.
Quando nos confrontamos com estes números, tendemos a afastar-nos. Pensamos: “isto não é sobre mim”. Mas, no que diz respeito à saúde emocional, estes dados não pertencem apenas aos “outros”. Dizem respeito a todos nós.
A nossa saúde emocional, tal como a física, é construída ao longo do tempo. Tem uma base genética, mas também comportamental. E, dentro dessa história, existe algo essencial: a responsabilidade das nossas escolhas.
Prevenir em saúde emocional implica procurar conhecimento e, sobretudo, aplicá-lo. Existem inúmeras formas de cuidar da nossa mente. Desde hábitos diários até acompanhamento terapêutico. E é importante reforçar que a terapia não é apenas para momentos de crise. Pode, e deve, ser uma ferramenta de prevenção.
Procurar ajuda, para nós ou para os nossos filhos, não é sinal de fraqueza. É sinal de consciência, de inteligência emocional e de capacidade de antecipação.
Competências como autoestima, resiliência, gestão emocional ou estratégias de coping não são privilégios de alguns. São capacidades humanas que podem ser desenvolvidas por todos nós. Todos nós temos recursos internos e externos que nos ajudam a encontrar equilíbrio.
O suicídio é, muitas vezes, a expressão limite de uma dor profunda e de uma desesperança silenciosa. E, por isso, a mudança começa em cada um de nós. Na forma como cuidamos de nós, como nos escutamos e como nos permitimos pedir ajuda.
Porque ajudar o outro começa sempre pelo exemplo. Pelo trabalho em nós. 
Como sempre digo aos meus pacientes, respirar é bem diferente de viver. E viver não pode ser automático. Trata-se de uma escolha diária. Com presença, com verdade e com sentido. Merece muito isto, viver e ser feliz de forma consciente.

. *Especialista em Trauma e Saúde Emocional. Terapeuta formada em Hipnose Clínica para crianças, adolescentes e adultos. Autora do método de saúde emocional A.S.E.S.
 

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