30 Jul 2026
> Carlos Costa Gomes
Vivemos um tempo singular. Tenho estado em alguns eventos nos quais, normalmente, existem intervenções e o que é curioso (ou não) tenho notado cada vez mais uma certa uniformização e mecanização da tonalidade textual.
Hoje, nunca foi tão fácil escrever. Mas nunca foi tão difícil saber quem escreve. Contudo, vai sendo cada vez mais fácil compreender um texto escrito pela inteligência Artificial ou pela inteligência humana, pois o texto escrito pela IA é percetível a linguagem uniformizada.
Porém, entre a palavra humana e a palavra produzida por algoritmos surge uma nova questão cultural, ética e até antropológica: afinal, o que é humano e o que é digital nos textos que lemos, escrevemos e escutamos?
Na verdade, nunca escrevemos tanto como hoje e nunca foi tão fácil escrever. Paradoxalmente, nunca foi tão difícil perceber onde termina a palavra humana e começa a intervenção digital. A expansão da Inteligência Artificial trouxe para o centro do debate uma questão que é simultaneamente tecnológica, cultural e ética: a integridade ética de quem é o autor do texto e o que distingue um texto escrito por uma pessoa de um texto gerado por um algoritmo?
A resposta não está apenas na qualidade da escrita. Os sistemas de Inteligência Artificial conseguem produzir textos corretos, claros e até criativos. Contudo, escrevem sem experiência, sem memória e sem consciência. Organizam informação, mas não vivem aquilo que descrevem. Não conhecem a dúvida, a esperança, o sofrimento ou a alegria. Apenas reproduzem padrões aprendidos a partir de milhões de textos existentes.
O ser humano, pelo contrário, escreve a partir da vida. Em cada palavra transporta uma história, uma intenção e uma responsabilidade. Um texto humano não vale apenas pela sua correção formal, mas pela autenticidade do pensamento que o sustenta.
Por isso, a verdadeira questão não é saber se a Inteligência Artificial escreve melhor ou pior do que nós. A questão é saber se continuamos a pensar por nós próprios. E o que dizemos no texto é exatamente aquilo que queríamos dizer. Porque, no fundo, quando delegamos o pensamento na IA corremos o risco de empobrecer a criatividade e até corremos o risco de sermos desonestos sobre o que assumimos dizer.
No fundo, quando ouvimos uma intervenção ou lemos um texto, muitas vezes fica a dúvida: quem é o autor do texto e se o texto diz mesmo aquilo que o autor do texto pensou dizer ou escrever. Talvez o maior desafio seja mesmo garantir que não desaprendamos de pensar.
Presidente do Centro de Estudos de Bioética