3 Sep 2026
> Ricardo Bastos
As Corridas Solidárias são verdadeiramente inacreditáveis. Um turbilhão de surpresas constantes e em catadupa. Quando todos nós achamos que já experienciamos tudo e já pouco ou nada falta acontecer que ainda não tenha acontecido, eis que somos esmagados por algo para o qual não conseguimos explicação.
Há pouco tempo, à hora de almoço, recebi uma chamada telefónica de um número fixo que não fazia parte da minha lista de contactos. Atendo e do outro lado da linha - não sei se ainda se aplica esta terminologia da “linha” - uma voz cansada mas lúcida, inteligente e carregada de sabedoria. Uma Senhora que começa por dizer “Senhor Ricardo, desculpe incomodá-lo pois não me conhece mas eu tenho uma coisa para lhe entregar”. Antes que eu dissesse alguma coisa, diz “eu costumo acompanhar as suas Corridas Solidárias e gosto muito do que faz”. Alimentei a conversa até que a Senhora me disse que ia deixar a tal “coisa” num estabelecimento comercial da cidade. Retorqui dizendo que gostava que me entregasse pessoalmente pois a queria conhecer.
“Olhe que vai ficar desiludido, pois sou uma velha sem interesse e com mais de 90 anos”. Acho que naquele momento me comecei a apaixonar pela Senhora.
Marcámos encontro, e... e aquela conversa de cerca de uma hora foi uma dádiva de Deus. A Senhora contou peripécias da sua vida, do que fazia, do que faz e, embora repetindo constantemente a sua idade, lá ia contando o que ainda pretendia fazer. Que comunicadora, que lucidez, que conteúdo lindo, que forma bonita de se viver. Entregou-me um envelope com um livro e um outro envelope mais pequeno.
Disse que não me ia ocupar +mais tempo pois para além do livro tinha uma carta (escrita à mão, vim a constatar) onde me explicava tudo.
Caramba, sozinho a ler a carta, chorei como um tolinho perdido. Com o coração a rebentar de felicidade e completamente descontrolado. Constatei ainda que o envelope tinha 50€ (desculpem divulgar o valor mas é importante pela explicação): “quero dar este dinheiro mas como o Sr Ricardo faz. Peguei na minha bengala e fui dar 50 passos. Custou mas aqui está, um euro por cada passo”.
Morri, paralisei e fiquei em estado de choque, do qual só saí quando partilhei com o restante grupo das Corridas Solidárias. O livro intitula-se “Caminhantes” e é autobiográfico da própria Senhora. Ando a ler e a aprender a cada página.
À dona Irene Lúcia Arede Marques do Pinheiro da Bemposta, muito obrigado por nos continuar a provar que os “velhos” são almas pelas quais nos podemos apaixonar, sim.
Não é a primeira vez que escrevo neste “pensamento livre” sobre gente deste calibre. Gente de quem é tão fácil se gostar e dar Graças a Deus.
Obrigado D. Irene Arede, estamos juntos...
* Organizador das ‘Corridas Solidárias’