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Correio de Azeméis

2 Apr 2026

As Rotundas e as Praças (I)

Ana Isabel da Costa e Silva

Ana Isabel da Costa e Silva*

Opinião > Ana Isabel da Costa e Silva

“Instalar estas estruturas [produções artísticas] no meio das rotundas, é como pendurar um quadro no meio de um corredor estreito”

As praças são lugares onde a cidade respira. Há nelas uma espécie de paciência, quase discreta. Esperam por quem chega à cidade sem saber bem ao que vem, apenas com o tempo para olhar em volta. Esperam pela criança que traz uma bola e transforma o chão em campo de jogo. Esperam por quem precisa de conversar ou, simplesmente, por quem precisa de estar, sem dizer nada. 
Uma praça apenas acolhe.
Durante muito tempo, a escultura encontrava nas praças o seu o lugar, porque a memória precisava de pausa. Entre bancos e árvores, as esculturas erguiam-se para serem vistas de frente, com tempo. Por vezes, a estatuária ocupava o centro da praça, onde as figuras recordavam acontecimentos, datas que se celebravam em sociedade. Havia, naturalmente, uma relação entre o lugar e o significado. A cidade parava para recordar. 
Ao contrário das praças, as rotundas são elementos urbanos que possibilitam o movimento rodoviário, quase sem parar. As rotundas são lugares de decisão rápida. Não foram feitas para permanecer. Foram feitas para seguir. Há, nas rotundas, uma lógica submissa à eficiência, porque, segundo dizem, evitam cruzamentos, reduzem conflitos e distribuem fluxos. 
E multiplicam-se pela cidade como promessa de fluidez. 
Para quem anda a pé, as rotundas são espaços que significam pouco. Para os automobilistas, significam quase nada. E, entre o movimento e a urgência de seguir, há, no entanto, uma decisão do Executivo Camarário, que nos acompanha há anos, de ocupar os centros das rotundas com produções artísticas, feitas por artistas locais.  
Contudo, instalar estas estruturas no centro das rotundas, é como pendurar um quadro no meio de um corredor estreito. Vê-se de relance, mas não há espaço, nem tempo, para o olhar com atenção. 
Instalar estas produções num lugar feito para não parar é talvez o mais evidente dos paradoxos. 

(continua)
 
  * Arquiteta, aste.arquitetura.pt e docente universitária anadacostaesilva@correiodeazemeis.pt

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