Carreiras e Empregos

Urb@nidades - Rui Nelson Dinis

A evolução da vida profissional não é linear. Tem saltos, quedas, elevadores, degraus e muitos imprevistos. A grande separação pode estar entre os chamados modelos de carreira e os de emprego.

Em algumas profissões, as pessoas desenvolvem a atividade profissional de forma linear, com movimentos horizontais ou verticais de avanço ou subida de degraus ou cargos. Por regra, adotam sistemas de desenvolvimento profissional assentes em carreiras e, dentro destas, evoluem por grupos, hierarquias, níveis ou escalões. Podem por vezes saltar alguns graus ou níveis, mas por regra o caminho tem precedências e sequências. São assim os modelos de progressão na administração publica e no Estado e, sobretudo, em carreiras tradicionais, como o ensino, a justiça, a saúde, a defesa ou a segurança.
Na maioria das profissões, as coisas não se passam assim. Cada profissional realiza o a sua carreira no exercício funções diversas, com responsabilidades definidas, fortemente dependentes de resultados e raramente inseridas em linhas de hierarquia ou progressão.
Cada posição é única e, depois dela, pode não estar mais nada em espera. Também existem promoções, mas não são lineares nem graduais – sobretudo, não são previsíveis. Assume-se uma posição (emprego), limitada e identificada, com estatuto próprio, até que se encontre ou mude para outra. Que pode ser ao lado, acima ou abaixo. Não se espera uma evolução gradual, em degraus, mas faz-se de saltos. Ou de quedas.
Ambos os modelos têm vantagens e inconvenientes, como quase tudo na vida, sendo que a maioria das pessoas não exerce as suas profissões em sistemas de carreira, mas sim em sistemas de emprego. Isto é, a mudança de empregos pode sempre fazer emergir relações indiretas, mesmo que distantes, que podem ter pontos em comum. Será assim porque, por regra, as pessoas procuram e trabalham em empregos e posições nas suas áreas de expertise. Não estão seguras por uma carreira, cada mês será um só e o futuro não é certo nem previsível.
Assim, ao contrário do que acontece com as profissões de carreira, que mudam ou podem mudar dentro do mesmo grupo ou na mesma linha de carreira (sobretudo nas áreas da defesa, justiça e segurança, onde as carreiras são praticamente vitalícias e perpétuas), nas profissões do sistema de emprego não se passa assim e as pessoas pulam de posição para posição, sendo que inevitavelmente se podem cruzar, ou cruzam sempre, com conexões anteriores.
Nestes sistemas, os incentivos estabelecem-se através de contatos, alianças, relações ou conexões, do chamado networking, porque se progride em rede. O fim de um emprego é o ponto de partida ou chegada para o seguinte – sem qualquer garantia ou segurança, muitas vezes até dependente de um período experimental.
A hierarquia não existe, mas o emprego também não é seguro. Não há uma carreira evolutiva pré-determinada, sendo que as relações profissionais, sociais e de cooperação são a única rede possível para dar alguma segurança a cada profissional. O risco e o retorno, em cada sistema, são muito diferentes – mas há quem não o entenda. E num país complexado com as chamadas “cunhas”, invejas e que premeia a suspeita, tudo subitamente pode parecer ser estranho e perigoso. 
  (comente em: dinis.ruinelson@gmail.com)

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