Furadouro ! (parte um)

Opinião

> Carlos Cunha

Para muitos oliveirenses pronunciar ‘Furadouro’ é despoletar um sem número de recordações, vivências várias. Para outros nem tanto embora, provavelmente, tenham escutado muitas estórias e histórias.
Em tempos idos, como nas décadas de 60 e 70 do século passado, as férias escolares eram passadas sobretudo em casa ou em seu redor. As escassas condições económicas não permitiam a demanda de outras paragens. A ‘febre’ dos Algarves e de longínquas terras ditas paradisíacas ainda não faziam parte das opções. Muitos estudantes, nesses tempos de paragem escolar, eram mais uns braços a ajudar nas lides caseiras e agrícolas.
Onde entra o Furadouro neste primeiro apontamento?
Entra desde logo evocando a existência durante muitos anos da Colónia de Férias do Centro Vidreiro. Situava-se a sul da povoação essencialmente piscatória como era o Furadouro de então.
Edifício construído em madeira (como muitas das casas-palheiros dos pescadores). Ali veraneavam, em regra pelo período de uma semana, os filhos dos trabalhadores do Centro Vidreiro e de bombeiros (e alguns mais).
Manhã cedo, após uma cevada com broa, a ganapada, em fila indiana, era conduzida até ao “ti Zé Banheiro” que à borda do mar já aguardava. Segurava, um de cada vez, por um braço e a sua outra sapuda mão na nuca e aqui vai…um, dois mergulhos nas gélidas águas.
Julho e Agosto eram os meses em que as famílias mais abastadas demandavam o Furadouro. Com o preço dos alugueres a baixarem, em Setembro ou Outubro eram os mais remediados que alugavam uma casita, um quarto ou até mesmo um palheiro.
No extenso areal perfilavam-se as barracas: as do Maganinho, as do Reguila, as do Ti Xico Manarte.
A norte e a sul do dito areal estavam os barcos e bateiras das companhas. Fizesse mar chão ou revolto, adentravam o mar. Venciam as ondas, que empinavam as embarcações, com a força dos braços daqueles resolutos homens de tez morena que buscavam um pouco de pão para a sua mesa.
Com a boca das redes prontas a serem fechadas era chegada a hora de entrar em acção as juntas de bois dos lavradores das redondezas que alertados pelo estralejar de foguetes postavam-se no areal. Atando uma grossa corda às das redes, os bois, ao ritmo de picadas de aguilhão, subiam areal acima. As duas fileiras de puxadores, em paralelo, iam encurtando a distância entre si até que os pescadores se esforçavam por fechar a boca do saco das redes. No seu bojo cintilavam, em tons prateados as sardinhas, os carapaus, algumas raias e fanecas.
No areal, os pescadores e suas mulheres faziam montes diversos por espécie. Uma vez retirado o quinhão de cada pescador seguia-se a arrematação, sob o olhar atento de soldados da Guarda Fiscal que ali estavam para arrecadar outro quinhão, o da receita do Estado.
Em cada lance de arrematação havia um despique cerrado junto de cada lote de pescado. “Quem dá mais ????” era o pregão desafiador do pregador de ocasião. “Um, dois, três !!! está arrematado para o Francisco! “ ou “vai para o Barnabé !!!
Momentos depois era ver Furadouro afora as mulheres vareiras com canastras à cabeça a caminharem ligeiro até Ovar, até Válega, até S. Martinho da Gândara, mesmo até Oliveira de Azeméis.
E no ar ressoavam pregões: “olha a sardinha do nosso mar !!!”, “É fresca !!!, “É fresca !!!”.
Quando o mar era mais generoso em peixe, à noite havia mais pão nos palheiros. Pão comido à luz frouxa de candeias ou de almotolias.
[ continua ]

* Colaborador

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