17 Apr 2026
> Sara Costa (BE)
A palavra liberdade anda a circular com uma facilidade suspeita. Diz-se em todo o lado e para tudo, como se bastasse pronunciá-la para que exista.
Fala-se de escolha enquanto há quem não escolha onde viver, quanto paga de renda ou que trabalho aceita. Com salários baixos e vida cara, a escolha encolhe. A liberdade segue o dinheiro. Onde há margem decide-se. Onde não há, aguenta-se. A autonomia transforma-se num luxo silencioso.
Ao mesmo tempo, a liberdade de expressão aparece como argumento universal. O volume cresce, o conteúdo desaparece. A repetição tenta impor-se como verdade. Há discursos que classificam pessoas, que apontam alvos, que normalizam a exclusão e ensaiam hierarquias entre quem conta e quem sobra. Essa prática tem história. Sabe como começa e sabe onde quer chegar.
A Constituição portuguesa assenta na dignidade da pessoa humana e na igualdade. Estes princípios organizam a vida democrática. Não são enfeites. São critérios. Não admitem exceções consoante a origem, a cor, o género ou a condição.
A liberdade depende das condições reais para agir. Sem rendimento suficiente, sem tempo, sem segurança, a liberdade fica reduzida a palavra. Quando é usada para legitimar a desumanização, deixa de ser liberdade e passa a instrumento de poder.
O resultado está à vista. Uns escolhem. Outros adaptam-se. Uns falam alto. Outros são empurrados para fora.
O Bloco de Esquerda recusa esta deriva. Recusa a liberdade que segue o saldo e a liberdade que legitima a exclusão. A liberdade exige condições, exige limites, exige responsabilidade política. E exige confronto com quem a usa para dividir e diminuir.
* Bloco de Esquerda