23 Jul 2026
> Catarina Gomes
Vivemos numa época em que a infância parece correr a grande velocidade. Entre a escola, as atividades extracurriculares e os compromissos profissionais, é fácil acreditarmos que precisamos de fazer mais para sermos bons pais.
Mas, talvez, a pergunta mais importante seja outra: estamos verdadeiramente presentes?
Enquanto psicóloga acompanho diariamente famílias e, há algo que se repete de forma consistente: as pessoas raramente falam dos presentes que receberam ou das férias mais caras que fizeram. Falam, isso sim, da avó que fazia o bolo preferido, do pai que brincava no chão da sala, da mãe que lia uma história antes de dormir ou daquele abraço que as fazia sentir seguras.
São estas as memórias afetivas.
As memórias afetivas são experiências carregadas de emoção que ficam gravadas na nossa história e ajudam a construir a forma como nos vemos a nós próprios, como nos relacionamos com os outros e como enfrentamos as dificuldades da vida.
Uma criança que cresce a sentir-se vista, escutada, valorizada e aceite como é, desenvolve, regra geral, uma maior segurança emocional, autoestima e capacidade para lidar com os desafios. Não porque nunca tenha sofrido, mas porque aprendeu que existe alguém disponível para a acolher quando isso acontece.
Importa também desfazer uma ideia muito comum: as memórias mais marcantes não exigem grandes investimentos financeiros. Na maioria das vezes, nascem de momentos simples e repetidos, rotinas e rituais familiares simples. Um pic nic no parque me merendas da aldeia, passeios de bicicleta, comer pizza no chão da sala, uma gargalhada à mesa ou uma história contada antes de adormecer podem deixar marcas muito mais profundas do que qualquer brinquedo.
Num tempo em que os ecrãs ocupam cada vez mais espaço nas nossas rotinas, vale a pena refletirmos sobre a diferença entre entreter e conectar. Os dispositivos podem ocupar o tempo, mas não substituem o contacto visual, a conversa, o toque, a brincadeira ou a presença emocional. E são precisamente estas experiências de ligação que alimentam as memórias afetivas.
Também é importante recordar que estas memórias não se constroem apenas nos dias felizes. Muitas vezes, nascem nos momentos difíceis: quando uma criança cai e alguém a ajuda a levantar-se, quando sente medo e encontra um colo seguro, quando falha e continua a sentir-se amada. Não é a ausência de dificuldades que protege a saúde mental, mas a presença de relações seguras durante essas dificuldades.
A questão é, nunca vamos saber quais são os momentos que os nossos filhos irão recordar quando forem adultos. Mas sabemos uma coisa: dificilmente serão aqueles em que lhes demos mais coisas. Serão, muito provavelmente, aqueles em que lhes demos mais de nós.
Porque as memórias afetivas são muito mais do que recordações. São uma espécie de almofada emocional que levamos connosco para toda a vida (eu confesso, quando como pão com ovo estrelado, vou para o conforto que sentia com a minha avó).
Talvez, por isso, a pergunta mais importante não seja: “Que futuro quero dar aos meus filhos?” E sim antes: “Que memórias estou a construir com eles hoje?”
* Psicóloga e Terapeuta Familiar e de Casal