6 Aug 2026
> António Magalhães
A 19 de Setembro de 1846, um sábado, bem cedo, as duas crianças sobem as ladeiras do Monte Planeau, cada uma tocando o seu rebanho de quatro vacas.
Maximino tinha ainda por companheiros uma cabra e a fidelidade do cachorro Lulu.Era meio dia. No fundo do vale o sino da aldeia anunciava a hora de Ângelus, as nossas tão tradicionais Trindades, hoje bem pouco mais que uma saudade. Os pastores conduzem as vacas até à chamada “fonte dos animais” , uma poça de água límpida abastecida pelo regato que desce pelo vale do Sézia, levando-as de seguida à campina Le Chomoir, nas escarpas do Monte Gargas. O calor aperta e os animais ruminam à sombra fresca e reconfortante.
Com os animais em descanso, Maximino e Melânia sobem à “fonte dos homens” e saboreiam aí a mais frugal das refeições: um pedaço de pão acompanhado de queijo caseiro. Juntam-se outros pastores iguais na idade e o diálogo começa.
Uma outra vez sós, Maximino e Melânia atravessam o regato, descem até encontrarem dois assentos improvisados com pedras empilhadas. Ela pousa a mochila e ele a jaqueta. Estendem-se sobre a relva e adormecem.
Melânia acorda sobressaltada porque não tem a noção do tempo consumido na apetecida soneca. Sacode Maximino e pede-lhe que o acompanhe na procura das vacas. Vacas que, afinal, pastavam tranquilamente mesmo ali a dois passos. Melânia regressa ao local de descanso. De repente assusta-se e diz ao companheiro que olhe o clarão de fogo.
Mas de entre a gigantesca bola de lume agiganta-se uma figura de mulher, em atitude de rara beleza, a cabeça entre as mãos e os cotovelos sobre os joelhos.
A bela Senhora fala aos pastores e diz-lhe, naturalmente na sua língua: “Vinde, meus filhos, não tenhais medo, aqui estou para vos contar uma grande novidade”. E continuou na proclamação da sua Mensagem.
Precisamente cinco anos mais tarde, em 19 de Setembro de 1851, D. Felisberto de Bruillard, Bispo de Grenoble, publica o seu “Mandamento Doutrinal” : “Nós julgamos que a aparição da Santa Virgem a dois pastores, sobre uma montanha da cadeia dos Alpes, na Paróquia de La Salette, no Arciprestado de Corps, traz em si mesma todos os caracteres da verdade, e que os fieis têm fundamento para crer nela como indubitável e certa”. Entretanto, anuncia a construção de um Santuário e a criação da Ordem dos Missionários de Nossa Senhora de La Salette, a quem caberia a divulgação da Mensagem.
A 19 de Setembro de 1855, D. Ginoulhiac, novo Bispo de Grenoble, resumia assim a situação: “ A missão dos pastores chegou ao fim, a da Igreja começa”.
A devoção a Nossa Senhora de La Salette em breve ultrapassou as fronteiras de França. Impossível saber quando chegou a Portugal. Certo é que já no distante ano de 1864, na capela do Solar de São Julião, da antiquíssima família Sousa Lara, em Paranhos da Beira, passou a venerar-se por voto de D. João de Albuquerque do Amaral e Cardoso, oriundo da Casa do Arco, em Viseu, que ali casou com a Morgada D. Maria Carolina Jácome Freire de Vasconcelos.
Sobre o momento do início, em Oliveira de Azeméis, da devoção a Nossa Senhora de La Salette, não vou repetir-me, e as razões são óbvias.
Uma devoção que esteve na origem daquele que constituirá, na longa história das nossas terras , o mais sublime exemplo de quanto verdadeiramente pode a vontade dos homens quando reunidos em torno de um ideal comum.
Erguer o nosso Parque em tempos das maiores dificuldades, quando apenas as carências abundavam, sem quaisquer apoios oficiais, desconhecidos ainda o Feder e tantos outros Fundos Comunitários, constituiu, efectivamente, uma ainda não escrita epopeia de gigantes.
A que se poderá juntar, talvez, uma manifestação da também não ainda explicada força telúrica, porventura bem viva ali nas entranhas do Monte dos Crastos: se ao longo de mais de um século não escassearam os escolhos no duro da jornada - alguns deles tão desnecessários ! - apareceu sempre o punhado de resistentes dispostos a lutar e a vencer . E o Parque continua a menina dos nossos olhos !
Na fidelidade a essa tradição, e num sempre renovado ciclo, aí estão uma outra vez as nossas festas.
Momento para saudarmos quantos nos visitam, para abraçarmos afectuosamente tantos dos nossos que, repartidos palas quatro Partidas do Mundo, aqui vêm acolher-se por instantes: ressarcir energias no frondoso arvoredo, revigorar a Fé no maternal aconchego do manto protector da Virgem.