2 Apr 2026
Helena Terra*
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“Num dos últimos quiosques da cidade comprei o jornal com intenção de me sentar na esplanada e lê-lo, mas na rua havia gente”
Tive dúvidas ao escolher o título deste artigo. Vacilei entre “Pessoas na Rua” ou a “Rua das Pessoas”. Vou falar do centro histórico da nossa cidade.
Em tempos conheci uma vila chamada Oliveira de Azeméis que tinha como grandes centros a Praça José da Costa e o Largo da República. A 16 de Maio de 1984 esta vila foi elevada a cidade. A Praça José da Costa lá está, no mesmo sítio, guardada pelo soldado desconhecido e o Largo da República também, vigiado pelo olhar atento de Bento Carqueja cujo busto perpetua o homem da ciência, da cultura, da informação e, sobretudo o grande humanista que, nos orgulha que seja oliveirense.
Herdeiros que somos da antiga cultura romana, as nossas cidades desenvolveram-se, tal como na Roma antiga, a partir de uma praça central aberta, geralmente cercada por edifícios públicos importantes, como templos, tribunais e a sede do senado local. Este centro, assim organizado chamava-se Fórum.
Por cá também foi esta a nossa génese. O nosso centro histórico constituído pelo largo da câmara (Largo da República) e pelo Jardim Público (Praça José da Costa). Estes com a igreja matriz nas redondezas, na velha rua de cima para alguns, a rua Bento Carqueja para todos e o Palácio da Justiça na Avenida, para os locais, ou Avenida Dr. António José de Almeida para toda a gente. Era nesta área que funcionava o centro cívico e de comércio, da vida política e administrativa e era também nesta área que se localizavam os edifícios com maior valor arquitetónico e alguma monumentalidade.
Durante muitos anos este nosso Fórum, foi atravessado pela antiga Estrada Nacional nº1, mas com a construção do IC2 livrámo-nos daquilo que, até então, era uma inevitabilidade.
Uma destas artérias, há muito pedonizada, foi, em tempos centro de comércio vibrante e hoje é uma memória e local de alguns espaços comerciais resistentes e resilientes, onde a aurora tarda em chegar e o ocaso é temporão. A outra, a Avenida é um espaço de grande movimento nos dias úteis e em horário útil, mas fora isso é só um espaço mais ou menos desolador.
No passado sábado, a Primavera fez-me ir dar-lhe as boas-vindas para a rua. Num dos últimos quiosques da cidade comprei o jornal com a intenção de me sentar na esplanada a lê-lo, mas na rua havia gente. Decorria o street market, havia vendedores, compradores, visitantes, transeuntes, pessoas de todas as idades.
Foi uma manhã em que me esqueci do tempo, encontrei gente, conversei, percorri o mercado de rua… e também sentei numa esplanada. Foi uma manhã de encontros, de conversa e empatia… e o jornal?
- Li-o depois de almoço, ainda com mais vontade!
* Advogada