“Quando os pais entram em campo (sem darem por isso)”

Opinião Catarina Gomes

Catarina Gomes, Psicóloga e Terapeuta familiar e de casal

Opinião

“O desporto infantil não tem de ser sobre táticas ou resultados: tem de ser sobre valores”

No desporto infantil, os pais raramente estão em campo — mas estão sempre em jogo.
Quem observa um treino ou um torneio de crianças sabe do que falo: há risos, nervos, energia, mas também há gritos vindos da bancada. Gritos que muitas vezes nascem do amor, da vontade de ver o filho dar o melhor de si. Só que, nesse impulso, o amor vem disfarçado de exigência, e o incentivo transforma-se em pressão.
Recentemente, numa ação de sensibilização que facilitei para um clube com o qual colaboro — “Pais em Jogo” — voltámos a esta conversa. E comecei por dizer o que acredito profundamente: todos os pais querem o melhor para os filhos. Estão presentes, acompanham, vibram com cada golo, cada defesa, cada corrida. 
Mas ser pai ou mãe na bancada também é educar. E educar é, inevitavelmente, dar exemplo.
 Quando uma criança vê o pai levantar-se e insultar o árbitro, aprende algo sobre como se reage à frustração. Quando ouve a mãe criticar o treinador, aprende algo sobre a autoridade. Quando é repreendida por falhar, aprende algo sobre o erro.
 O desporto infantil não tem de ser sobre táticas ou resultados; tem de ser sobre valores. Sobre aprender a estar em grupo, trabalhar em equipa, a lidar com a vitória sem arrogância e com a derrota sem desânimo.
Deve ser um espaço para experimentar, cair, rir, levantar-se e voltar a tentar.
 O papel dos pais não é o de treinador nem o de árbitro. É o de presença. De quem está, de quem apoia, de quem segura emocionalmente o jogo. Os filhos não precisam que gritem — precisam que estejam lá. Precisam que sejam, na bancada, o que precisam que sejam na vida: pais.
 Educar é sempre pelo exemplo. E é nas bancadas, tantas vezes, que se treina o respeito, a empatia e a calma. Uma bancada de um jogo de crianças não pode ser um púlpito de raiva; tem de ser uma fábrica de empatia.
 Silêncio pode ser amor. Um aplauso pode ser tudo. Um abraço no final, ainda mais.
 No final da ação, partilhei algo com os pais:
“Muitos de vocês estarão a pensar que quem precisava de ouvir isto não está aqui.”
E é verdade. Mas também é verdade que o exemplo é contagioso.
Cada pai ou mãe que escolhe estar de forma mais consciente, mais respeitadora, mais presente, está a ensinar outros pais a fazê-lo.
É assim que o desporto — e a parentalidade — podem tornar-se espaços de transformação.
 Porque, afinal, educar é isso: deixar uma marca no modo como os outros aprendem a estar no mundo. E que bonito é quando essa marca é de respeito, amor e presença.
 

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