19 Mar 2026
Helena Terra*
Opinião > Helena Terra
A nossa democracia é jovem. Faz daqui a dias 52 anos e, portanto, não tem idade para a reforma, e apesar das maleitas que lhe temos vindo a notar, também não tem condições para ser declarada inválida. Temos de cuidar dela.
Foi de uma revolução, a Revolução dos Cravos em abril de 74 que a nossa democracia nasceu e, longe de mim querer contrariar os que defendem que se tratou de um golpe de Estado conduzido por setores do próprio regime, que depuseram a ordem constitucional então vigente com mínima violência. Discussões à parte, falar de democracia em Portugal é relembrar uma ação revolucionária que foi liderada por um Movimento das Forças Armadas (MFA), composto na sua maior parte por capitães que tinham participado na Guerra Colonial e que tiveram o apoio de oficiais milicianos; além do imediato e espontâneo apoio popular que se viu e sentiu.
Se sairmos do nosso retângulo à beira-mar plantado e pensarmos na morte de muitas democracias pelo mundo fora, no tempo da guerra fria, concluímos que elas ocorreram às mãos de homens armados.
Mas se é um facto que vivemos sobre uma ameaça bélica que pode ter consequências muito imprevisíveis, não é menos verdade que, no nosso caso (porque é o que mais nos toca) a democracia está muito mais ameaçada por alguns líderes eleitos do que por qualquer outra coisa. Nos últimos anos, os dois maiores partidos do nosso mainstream estiveram muito mais preocupados com estratégia partidária do que com a política enquanto arte ou ciência de governar, organizar e administrar uma sociedade, gerir conflitos e alcançar o bem comum através de decisões coletivas, leis e políticas públicas. Nunca percamos de vista que a palavra política, na sua origem grega (polis) envolvia o exercício do poder, diálogo, negociação e a participação cidadã na vida pública. Ora, isto foi tudo o que, nos últimos anos, não aconteceu.
Uma das maiores manifestações da erosão que todos os dias vai ocorrendo no nosso país, prende-se com a crise na qual estão mergulhados os nossos serviços públicos em geral. O serviço nacional de saúde que sempre foi uma das maiores bandeiras da nossa democracia está no estado em que o conhecemos. Os tribunais, um dos mais importantes órgãos de soberania de um estado democrático, os órgãos de soberania que administram a Justiça em nome do povo, andam nas bocas do mundo, normalmente por maus motivos e até fazem abertura de telejornais.
Na última década as pessoas não viram a suas vidas melhorarem substancialmente. Deixámos de ter classe média. O elevador social e o seu motor de deixou de funcionar e reina o desencanto. Eis o terreno fértil para o surgimento de extremismos e populismos de verbo fácil, vazio, mas atrativo. É tempo de ter a coragem política para isolar os extremismos, pondo de lado o medo e o oportunismo político que são os grandes responsáveis que fazem com que os ditos partidos instituídos, tragam populistas e extremistas para o mainstream.
* Advogada