23 Apr 2026
António Couto*
Opinião Política > António Couto
Escrevo esta crónica num papel solto, por cima do manual dos exames nacionais, que, agora, me disponho a arrumar no canto da estante até me abrandar o azedume que dificilmente deixará de ser indignação . É que, ao que parece, lá para as últimas páginas aparece um escritor que, afinal, não merece estar aqui (escritor que, por acaso, ganhou um Prémio Nobel, mas era comunista empenhado, inquieto e que ainda desassossega o leitor que se disponha a percorrer as páginas da sua obra). O Ministério da Educação Ciência e Inovação decidiu (para alguns, finalmente) propor a retirada do Saramago das Aprendizagens Essenciais de Português ( simplificando, do programa) do 12.º ano. Para espanto, percebeu-se que não há sequer orgulho patriótico que se tente acautelar com tão despudorada intenção, na medida em que o ministro se socorreu de argumentos pequeninos de que existem outros bons escritores. Não bastando, até procurou auxílio de entendidos na matéria para se lembrar a falta de hábitos de leitura dos alunos ( talvez para se dizer que é melhor tirar o que é complexo porque pode dificultar o caminho, bastando o que exige menos esforço!). De certa forma, cumprem-se assim os sonhos e as sanhas de malta anticomunista, que já desde o tempo de Cavaco Silva e Sousa Lara ( que conheço pelo que li e ouvi , ficando também a saber que assumiu cargo de relevo na extrema direita do nosso tempo) nunca suportaram o sucesso de um homem com pertença política que queriam combater ( comunista pode até existir, mas reconhecido e ouvido ou lido é que não). Naturalmente, não o conseguiram cancelar, apesar do veto do Evangelho Segundo Jesus Cristo à candidatura a um prémio europeu .
Poderia até ser cegueira ou ignorância, mas não parece ser isso. Na verdade, tirar o Saramago das carteiras da sala de aula, privando os jovens da grande arte, da consciência, é um crime, é cruel; é não ter limites para alcançar os fins; é roubar esperança. No fundo, tanto Saramago como outros nunca serviram para andar na lapela. Hoje, o Saramago; outrora, Soeiro Pereira Gomes; amanhã, “Sempre é uma Companhia”, belíssimo conto de Manuel da Fonseca. Assim se esquecem ditaduras; assim se esquecem lutas; assim continua a perseguição aos que não são acomodadiços.
* CDU