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Correio de Azeméis

20 Nov 2025

Tertúlia evoca vida e obra do Padre Manuel Pires Bastos'

Macinhata da Seixa Concelho

Joaquim Ferreira, Eng.ª Alegria, Manuel Terra, António Marques e Padre José Manuel foram os oradores principais da tertulia

>Macinhata da Seixa recorda uma figura maior da região

A sede do Grupo Musical Macinhatense encheu-se, na noite de 15 de novembro, para a tertúlia “Vida e Obra do Padre Manuel Pires Bastos”, uma iniciativa do GMM e do Centro de Estudos Padre Bastos que reuniu testemunhos vivos de quem privou de perto com o sacerdote, historiador, jornalista e dinamizador cultural.

A sede do Grupo Musical Macinhatense (GMM) recebeu na noite de 15 de novembro várias pessoas que quiseram  recordar o Padre Manuel Pires Bastos, numa tertúlia que evocou a dimensão humana, cultural e espiritual de um dos maiores divulgadores da história local e regional. A iniciativa foi promovida pelo GMM, esteve a cargo Centro de Estudos Padre Bastos, e reuniu várias gerações que com ele conviveram, sobretudo em Macinhata da Seixa e em Ovar.
O encontro foi conduzido por Manuel Terra, que enfatizou que “reduzir o Padre Bastos ao ministério seria empobrecer o que ele foi”. Em nome da casa anfitriã, o presidente do GMM, Joaquim Ferreira, destacou a importância de ver a comunidade reunir-se em torno da memória e obra do padre.
Ao longo da noite, contram-se vários intervenientes: cada um trouxe histórias sobre o um padre-homem que transportou sempre consigo a cultura, o rigor intelectual e uma enorme capacidade de ouvir.
Foram recordados episódios da sua passagem por Macinhata da Seixa (1961–1975) e o longo serviço pastoral em Ovar, onde permaneceu até ao seu falecimento em 2020. Evocaram-se igualmente a intensa atividade jornalística no quinzenário “João Semana”, o envolvimento no teatro, a paixão pela história local e o trabalho enquanto professor junto de sucessivas gerações de jovens.

Saudade
“A primeira coisa que me ocorre quando entro numa sala que tem um piano é imaginar o Padre Bastos a entrar, sentar-se e tocar o hino de Alvar e o hino de Macinhata, e depois pedir-nos para cantar. Era uma coisa fabulosa, e as saudades que temos dele vêm muito dessas imagens simples, mas cheias de vida.”
“O Padre Bastos foi mais do que um padre, foi um eclético: licenciado em História e em Jornalismo, ensaiava teatro, compunha música, escrevia monografias e apaixonava-se pelas terras por onde passava. Ele não só estudava as comunidades, como as ensinava a gostar de si próprias e a reconhecer o valor da sua história.” 
Manuel Terra, Centro de Estudos Padre Bastos

“Deixou memória, obra e laços”
“Enquanto presidente da Associação, só posso agradecer a todos por encherem esta casa para falar do Padre Bastos. Houve um tempo na vida de muitos massinhantenses que ficou marcado pela sua passagem por aqui, e é com prazer que vemos esta sala cheia para partilhar essa experiência e essa saudade.”
“É importante que esta casa se encha com temas importantes e hoje é um dia especial. A presença do Padre Bastos em Macinhata deixou memória, deixou obra e deixou laços; ver a comunidade reunir-se para o recordar mostra que não temos memória curta e que sabemos honrar quem nos marcou.” 
Joaquim Ferreira, 
presdiente do GMM

“Espírito aberto”
“Conheci o Padre Bastos como um colega ‘todo direitinho’, engravatado, sem o colarinho clerical, e isso dizia logo muito sobre o seu espírito aberto. Mais tarde, ao ouvi-lo falar e ao ver o trabalho dele, percebi que era daqueles padres que não se acomodam, que não são preguiçosos e que continuam sempre a estudar e a procurar mais.”
“A formação dele, a cultura e o espírito aberto foram decisivos num tempo marcado pelo Concílio Vaticano II. Enquanto alguns padres se fechavam, ele caminhava com as pessoas, com os leigos, com as famílias. A morte purifica e confirma a obra de uma vida, e hoje podemos dizer que o Padre Bastos está em caminho de santificação pela forma como viveu o ministério e a entrega às comunidades.” 
Padre José Manuel, 
sacerdote

Um grande mestre
“O Sr. Padre Bastos um dia entregou-me a chave do carro e eu ainda não tinha carta, para ir para a Estrada da Senhora das Flores conduzir sozinho, porque tinha ficado mal no primeiro exame. Eu não tinha carta, não tinha seguro, e ele era o responsável por tudo o que pudesse acontecer. Isso diz muito da confiança que ele tinha nas pessoas.”
“Quando a educação sexual começou a ser falada nas escolas, ele deu-nos livros e ajudou-nos a encontrar palavras que não tínhamos. A minha filha acabou por surpreender o professor pela forma como estava informada, e isso devia-se aos livros e às conversas que o Padre Bastos nos proporcionou. Ele foi um grande mestre.” 
António Marques, membro da comunidade

Entusiasmo por Macinhata
“O Padre Bastos ficou-me gravado porque fomos colegas na antiga Escola Industrial. Dávamos aulas juntos e ele falava de Macinhata com tanto entusiasmo que acabou por me influenciar na decisão de vir viver para cá.”
“Quando lhe pedi que fosse ele a celebrar o meu casamento num dia da semana, em Macinhata, ele aceitou de imediato, mas disse: ‘Só numa condição: não me convidem para o almoço, porque à semana tenho compromissos pastorais.’ Essa forma de viver o ministério marcou-me e vai fazer 50 anos que ele me casou.” 
Engenheiro Alegria, 
ex-colega na docência

Uma paixão incrível
“Passei grande parte da minha juventude com o Padre Bastos. Ele levava grupos de crianças para a praia no Furadouro e eu ia ajudar a tomar conta delas. O amor que ele tinha pelas crianças e pelos jovens via-se em cada gesto.”
“Recordo-me de o ver reformular o coro da igreja, criar um conjunto para animar as celebrações e aproximar os jovens da missa. Mais tarde, como autarca, convidei-o para falar sobre a história de Pinheiro da Bemposta, e ele explicava tudo com uma paixão incrível.” 
António Nobre, 
ex-presidente da Junta de Pinheiro da Bemposta

“Não dava apenas aulas ou missas”
“O Padre Bastos teve uma influência enorme na formação dos jovens de Macinhata. Pegava no carro e ia de porta em porta convencer os pais a deixarem os filhos estudar em Oliveira de Azeméis, numa altura em que isso não era nada comum.”
"A minha esposa tem o 12.º ano porque ele foi falar com a minha sogra e insistiu para que ela continuasse a estudar. À noite ia buscá-los à escola, de pantufas e gorro, às onze e meia. Ele não dava apenas aulas ou missas — ele pegava nas pessoas pela mão e levava-as mais longe.” 
Nelson Castro, membro da comunidade

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