3 Jul 2026
> Manuel Terra
Há lugares que são mais do que um ponto no mapa. São espaços de encontro, de identidade e de memória coletiva. O Largo de Alumieira é um desses lugares — e, há 58 anos, o seu coração bate com mais força todas as quintas-feiras, graças ao Mercado de Alumieira.
A sua primeira realização remonta a 3 de outubro de 1968, uma quinta-feira. Não foi um acaso, mas antes o resultado de uma visão comunitária promovida pela Junta de Freguesia, então liderada por Amadeu Soares Amorim. A iniciativa contou ainda com o entusiasmo do pároco Manuel Alves de Paiva, figura marcante da época, que ajudava a animar o espaço com música difundida por altifalantes — um detalhe simples, mas revelador do espírito vivido: o mercado não era apenas comércio, era convivência.
Os relatos da época, nomeadamente no jornal paroquial Família Unida, descrevem um arranque surpreendente. Vendedores surgiram em número significativo, oferecendo de tudo um pouco, e os compradores acorreram em massa. O sucesso foi tal que alguns comerciantes esgotaram rapidamente os produtos que tinham trazido. Estava criado algo que ultrapassava a mera função económica: um verdadeiro ponto de encontro da comunidade. Importa recordar que o Mercado de Alumieira nasce também como resposta ao desaparecimento da “Feira dos Seis”, que durante anos se realizara mensalmente no dia 6. A tentativa de a reavivar não teve sucesso, mas o mercado semanal vingou — e resistiu ao tempo, às mudanças sociais e até a uma pandemia que, temporariamente, lhe interrompeu o ritmo. Durante décadas, o mercado foi motor de dinamização do Largo e da vida local. Era ali que se comprava, mas também onde se conversava, se trocavam novidades e se reforçavam laços. Era, em suma, um espaço de proximidade, tão necessário numa sociedade que hoje tantas vezes se afasta do contacto humano direto.
Hoje, porém, o cenário é diferente. O Mercado de Alumieira já não tem o fulgor de outros tempos. Vai resistindo, muito por mérito da persistência de alguns comerciantes que, com notável teimosia — no melhor sentido da palavra — continuam a marcar presença semanal. Mas essa resistência tem limites. As exigências legais, nomeadamente ao nível sanitário, são cada vez mais apertadas — e bem. Contudo, a ausência de condições adequadas, quer por falta de investimento público, quer pela dificuldade dos próprios comerciantes em se adaptarem, tem contribuído para a perda progressiva de vendedores. Menos vendedores trazem menos oferta, e menos oferta afasta compradores. O ciclo é conhecido — e perigoso. O que está em causa não é apenas um mercado. É um espaço de identidade local, um elemento de coesão social e um património imaterial que, uma vez perdido, dificilmente será recuperado.
Se nada for feito para garantir condições dignas e modernas de funcionamento, o Mercado de Alumieira arrisca-se a desaparecer. E com ele, perder-se-á muito mais do que bancas e produtos: perder-se-á uma parte da alma do Largo e da própria comunidade de Loureiro.
Cabe agora à autarquia, às entidades locais e à própria população decidir se querem assistir a esse fim inevitável — ou se, pelo contrário, estão dispostas a investir, adaptar e revitalizar um espaço que durante quase seis décadas deu vida ao coração da freguesia. Porque há tradições que não sobrevivem apenas da memória. Precisam de compromisso. E, sobretudo, de ação.
* Colaborador