A criança e as bombas de guerra

Bilhete Postal

> Eduardo Costa

A criança de oito anos viu três aviões de combate a sobrevoar os nossos céus e de imediato perguntou: “podem largar bombas?” “Não, em Portugal não caem bombas..”, apaziguei. “Mas os russos não atiram bombas?”, insistiu a criança. “Atiram à Ucrânia, estão em guerra”. ”Mas as bombas não podem cair aqui?” “Não, as bombas dos russos não chegam aqui, estamos muito longe e não estamos em guerra com eles, a Ucrânia é quem está…” “E somos amigos da Ucrânia?” “Sim”, confirmei. “Então por que não os vamos ajudar?” “Nós e os outros países da Europa amigos da Ucrânia estão a ajudar. Por exemplo, com dinheiro para eles terem comida e também com armas para se defenderem dos russos…” “E os russos podem vir aqui lançar bombas?” “A Rússia não pode entrar na Europa pois nós somos mais fortes do que eles. Vês ali as luzinhas verde e vermelha? São as cores de Portugal. Alguns destes aviões vão para países que estão próximos da Rússia, para não deixarem os aviões da Rússia entrar na Europa. Somos uma família e se alguém ataca um irmão, nós vamos defendê-lo.”

O chorrilho de perguntas não terminava, tal a curiosidade acumulada da criança. A certa altura vi-me na necessidade de comparar uma mesa grande e uma pequena. “Esta mesa grande é a Europa. Esta mesa pequena é a Rússia. Portugal está na ponta de mesa grande e muito longe da Rússia”. A criança ficou tranquila. Afinal, as bombas da guerra não vão cair-nos em cima. 

Resumo da conversa que durou mais de meia hora: as notícias sobre a guerra deixam as crianças psicologicamente fragilizadas e com medos. Observam mais do que pensamos. 

Acho que somente falando com elas e explicando poderemos tranquilizar os seus confusos espíritos. As nossas crianças são vítimas colaterais de uma guerra que está aqui ‘à porta’ e sentem-na.
 
* Jornalista, presidente da Ass. Nac. da Imprensa Regional (Esta crónica é publicada por cerca de 50  jornais)

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