29 Jan 2026
Carlos Costa Gomes*
Opinião
“Esforço-me para ser melhor que os outros ou para me tornar melhor do que ontem? Há uma atitude silenciosa, mas profundamente reveladora do nosso tempo: enquanto sou visto como número um, esforço-me; mas quando aparece alguém com valor igual ou superior ao meu, não raras vezes, sinto-o como ameaça e em algo a abater. Claro, que não se trata apenas de uma reação emocional, trata-se de um problema ético e de maturidade pessoal. Esta lógica revela uma compreensão pobre, frágil e negativa do esforço e do mérito. O empenho, a dedicação deixa de ser um valor em si mesmo e passa a depender da posição ocupada. O esforço não nasce do desejo de crescer, mas da necessidade de vencer, de ser o primeiro do grupo, da equipa ou da turma. Quando o lugar cimeiro deixa de ser garantido, o compromisso perde sentido. O problema não está na existência de pessoas mais capazes, mais talentosas ou mais dedicadas. A diversidade de talentos é um facto da condição humana. O problema surge quando a excelência do outro é vivida como ameaça e não como estímulo. Nesse momento, a comparação substitui a aprendizagem, e a inveja silenciosa toma o lugar da admiração. Do ponto de vista ético, o afastamento ou a ausência regular motivada porque alguém que tem qualidades ou valor igual ou superior ao meu, revela uma fragilidade ética e intelectual: o valor pessoal passa a depender da superioridade sobre os outros. Quando essa superioridade se perde, perde-se também a motivação. Esta atitude empobrece não só quem atua e vive desta forma, mas também o grupo ou comunidade, que deixa de bene ciar do contributo de todos. A ética da maturidade é uma ética do esforço que nos ensina o contrário: o verdadeiro compromisso revela-se precisamente quando o caminho é exigente, quando pessoas com capacidades iguais nos estimulam, e nos obrigam a sermos, saudavelmente melhores e mais capazes. A ética da maturidade é uma ética do caminho feita com valores morais e humanos que devemos transmitir em casa e na escola – a humildade intelectual, a perseverança, a justiça, a autenticidade e a coerência; a integridade e dignidade – porque é pelos valores que se forma o carácter da pessoa, que o talento se reconhece, que a humildade se torna sabedoria. A sabedoria da humildade autêntica reconhece o valor do outro sem anular o próprio. Numa cultura obcecada com rankings, pódios e comparações constantes, urge recuperar uma ética do caminho e não apenas do lugar ocupado. O valor de uma pessoa não se mede pela posição que ocupa, mas pela delidade ao esforço, mesmo quando o reconhecimento não é imediato. Talvez a pergunta decisiva seja esta: esforço-me para ser melhor e maior que os outros ou para me tornar melhor do que ontem? A resposta a esta pergunta de ne não só a nossa atitude perante a excelência alheia, mas também a qualidade ética da nossa vida.
*Presidente do Centro de Estudos de Bioética e Professor e Investigador ESSNorteCVP