25 Jun 2026
Saudável(mente) com a Dr.ª Fanny Martins
> Fanny Martins
Nos últimos meses, temos assistido a conflitos, guerras e divisões em vários pontos do mundo. Vemos imagens de destruição, sofrimento e perda que nos fazem questionar como é possível que, em pleno século XXI, a humanidade continue a escolher o confronto em vez da cooperação.
É fácil olhar para estes acontecimentos como algo distante, pertencente a países, governos ou líderes. Mas a verdade é que as grandes guerras são muitas vezes o reflexo ampliado de pequenas guerras que acontecem diariamente dentro de cada um de nós.
A guerra nasce da incapacidade de compreender o outro. Nasce do medo, da intolerância, da necessidade de ter razão a qualquer custo. Nasce quando deixamos de reconhecer humanidade em quem pensa, sente ou vive de forma diferente. E se refletirmos bem, quantas vezes também travamos guerras silenciosas? Contra nós próprios. Contra o nosso passado. Contra as nossas imperfeições. Contra pessoas que nos magoaram ou que não corresponderam às nossas expectativas. A paz não começa nas fronteiras dos países. Começa nas fronteiras internas de cada ser humano. Não significa concordar com tudo. Não significa aceitar injustiças ou deixar de defender aquilo em que acreditamos. Significa aprender a responder em vez de reagir. Significa escolher a consciência em vez do impulso, a compreensão em vez do julgamento e o diálogo em vez da agressão. A ciência tem demonstrado que estados emocionais prolongados de hostilidade, raiva e conflito estão associados a níveis mais elevados de stress e inflamação no organismo, afetando diretamente a saúde física e mental. Pelo contrário, emoções como a compaixão, a gratidão e a conexão promovem maior bem-estar e equilíbrio emocional (Fredrickson, Positive Emotions and Well-Being, 2004). Talvez seja por isso que cultivar a paz interior não seja apenas um ato de desenvolvimento pessoal. É também uma forma de contribuição para o mundo que queremos construir. Mas como cultivamos essa paz?
A primeira estratégia passa por criar momentos diários de silêncio e presença. Mesmo que sejam apenas cinco minutos. Respirar conscientemente, observar os próprios pensamentos e regressar ao momento presente ajuda-nos a reduzir o ruído mental e a responder à vida com maior clareza. A segunda estratégia consiste em praticar a compaixão. Começando por nós próprios. Aprender a falar connosco com mais gentileza, reconhecer as nossas fragilidades e estender essa compreensão aos outros. Afinal, todos travam batalhas que nem sempre conseguimos ver. Existe ainda uma forma de paz que está ao alcance de todos nós: o toque humano. Um abraço demorado. Um dar de mãos. Um miminho no rosto de alguém que amamos. Um gesto simples que diz “estou aqui” sem precisar de palavras. A ciência demonstra que o contacto físico afetuoso ajuda a diminuir o stress e promove sentimentos de segurança e conexão através da libertação de oxitocina. Talvez por isso um abraço tenha, tantas vezes, o poder de acalmar aquilo que uma conversa inteira não consegue. Num tempo em que estamos cada vez mais ligados à tecnologia, é importante não esquecermos aquilo que nos liga verdadeiramente uns aos outros.
A paz mundial pode parecer um ideal distante. Mas a paz interior está ao alcance de cada um de nós, todos os dias.
Sei que a verdadeira transformação acontece quando compreendemos que um mundo mais pacífico não se constrói apenas através de tratados ou acordos. Constrói-se, sobretudo, através de humanos que decidem fazer as pazes primeiro consigo próprias, num processo profundo de aceitação, auto empatia e amor. Quem vive em guerra dentro de si terá sempre dificuldade em construir e encontrar paz à sua volta.
* Especialista em Trauma e Saúde Emocional. Terapeuta formada em Hipnose Clínica para crianças, adolescentes e adultos.
Autora do método de saúde emocional A.S.E.S.
Mais informações em www.asdeser.pt