As doenças da política

Helena Terra

> Helena Terra

Não é só em Portugal que se vive uma crise política e da política partidária generalizada, mas é sobre a que, por cá, vivemos que vou refletir.
Os partidos fundadores da democracia em Portugal vivem uma enorme crise interna que, naturalmente, se reflete naquilo que têm sido os governos da Nação. Os partidos de extrema-esquerda tendem a desaparecer porque petrificaram, no que toca às ideias que transmitem, ao discurso público, estando “fossilizados” de tal modo que as suas intervenções públicas têm um conteúdo que facilmente é antecipado pelos seus destinatários porque já foi repetido à exaustão na última década.
O partido de direita, de matriz democrata-cristã e conservadora, fundado em 1974. Mantém-se posicionado como o partido mais conservador do espectro político português, que, atenta a sua matriz não passou incólume aos escândalos de cariz sexual, envolvendo vários membros da igreja, vindos a público nos últimos anos.
Mantendo a reflexão nos partidos tradicionais do nosso sistema democrático, sobram no espectro político – partidário o PSD e o PS. Um em coligação é poder, embora minoritário, e o outro é oposição.
Um e outro, na história da nossa democracia, alternarem no poder é algo a que já estávamos habituados, mas o PSD ser poder e o PS ser o segundo partido da oposição, não em número de votos, mas em número de deputados eleitos, é uma novidade.
O PS, tem um secretário-geral recém-eleito e há quem diga que é pouco carismático, pouco mobilizador; ou seja que não é, propriamente, um líder político com capacidade de influenciar, inspirar e mobilizar pessoas em torno de um projeto comum, utilizando competências como autenticidade, empatia, visão estratégica, honestidade e integridade e com capacidades de tomada de decisão e gestão de crises.
O PS teve na sua fundação líderes fortes e absolutamente carismáticos, mas não me parece que o problema que o PS tem para resolver, a bem de si próprio e, mormente a bem do país, seja um problema de orfandade de liderança. O problema é a falta de um projeto concreto que o país perceba e que concretize a sua matriz de um partido social-democrata, com uma ideologia política de centro-esquerda que cria condições à iniciativa privada assente num modelo reformista capaz de gerar riqueza, sem pôr em causa a propriedade privada. Que mitigue as desigualdades, concretizando a justiça social e que defenda a democracia representativa, organizando um estado regulador forte, capaz de abortar os abusos corrosivos da própria social-democracia que tem como princípios fundadores a liberdade e a igualdade. Além disso, que afaste do exercício de cargos políticos atores e figurantes que se aproveitem disso, fazendo uso de vantagens patrimoniais que são de todos nós em proveito próprio.
Um projeto económico onde convivam a liberdade do mercado com a intervenção do Estado para regular atividades e garantir direitos sociais. Um sistema institucional que defenda a existência de serviços públicos essenciais, como saúde e educação de qualidade e tendencialmente gratuitos porque financiados pela receita fiscal. Defendendo que a transformação social ocorra por via de eleições onde todos têm o poder/dever de decidir. Um sistema de justiça que os cidadãos percebam e que efetivamente seja o escudo maior de defesa dos mais elementares direitos, liberdades e garantias em todos os patamares e tipos de jurisdição.
Isto por forma a que os cidadãos vejam o Estado como um executor de serviços públicos eficazes e de qualidade, acalentando a certeza de que quando tudo falhar, o Estado não abandona, nem deixa ninguém para trás.

* Advogada
 

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