Entrevistado pelo prof. José Manuel e por Eduardo Costa, D. Roberto Mariz defendeu que a fé deve estar presente no espaço público numa lógica de testemunho e com linguagem acessível
> Bispo auxiliar do Porto em entrevista à AZEMÉIS TV. “Sem medo do futuro”
Na entrevista concedida à Azeméis TV para o programa Nova Dimensão, da Rádio Caima Azeméis FM, D. Roberto Mariz sustentou que a rádio continua a ser um meio atual para comunicar a fé, valorizou a visita pastoral como experiência de comunhão e proximidade e defendeu uma Igreja menos preocupada com números e mais centrada nas pessoas.
D. Roberto Mariz entregou ao Diretor do grupo Correio de Azeméis, Eduardo Costa, a pedido do Padre José Manuel Lima, uma flâmula da paróquia de Oliveira de Azeméis, na presença de Miguel Ferr
A rádio continua a fazer sentido para a Igreja e não foi ultrapassada pela aceleração digital. Foi esta uma das ideias mais firmes deixadas por D. Roberto Mariz na entrevista concedida à Azeméis TV, no contexto do programa Nova Dimensão, da Rádio Caima Azeméis FM, quando respondeu sem hesitar à questão colocada por José Manuel Lopes sobre a utilidade de manter um espaço radiofónico de inspiração cristã. “A resposta só pode ser uma: é sim, é sim”, afirmou o bispo auxiliar do Porto, defendendo que a rádio conserva pertinência comunicacional e continua a ser um veículo eficaz para levar o Evangelho ao quotidiano das pessoas.
A partir dessa resposta, D. Roberto Mariz abriu uma reflexão mais ampla sobre o modo como a fé deve estar presente no espaço público. Sem qualquer registo de imposição, insistiu antes numa lógica de testemunho, linguagem acessível e capacidade de tocar o interior de quem escuta. “Nunca com proselitismo sobre ninguém, mas onde por paixão e atração possamos manifestar e transmitir este ardor, esta alegria, este entusiasmo”, afirmou, sublinhando que a mensagem cristã continua a ter lugar no tempo presente, desde que seja comunicada com verdade, proximidade e sentido humano.
Rádio, memória e continuidade
A entrevista decorreu nos estúdios do grupo de comunicação local, com moderação de José Manuel Lopes, responsável pelo programa Nova Dimensão, e de Eduardo Costa, diretor do grupo de comunicação. Coube a José Manuel Lopes abrir a conversa, enquadrando o programa como espaço de inspiração religiosa, atento à vida da paróquia, à atualidade da Igreja, à formação e à liturgia do dia.
Foi também ele quem lançou o tema de fundo da manhã: vale a pena, hoje, manter uma presença cristã na rádio? D. Roberto Mariz respondeu de forma clara, elogiando a persistência deste formato e agradecendo a quem esteve “na origem do florir e do nascer desta realidade” em Oliveira de Azeméis.
Questionado sobre o sentido da visita pastoral, D. Roberto Mariz procurou responder menos com linguagem institucional e mais com uma imagem simples: a de uma família que gosta de estar junta. Explicou que a Igreja “não é uma pessoa isolada, não é um bispo isolado, não é um padre isolado”, mas uma vivência comunitária, e que a visita pastoral serve precisamente para dar tempo, rosto e concretização a essa experiência de comunhão.
Pandemia, pastoral familiar e desafios do presente
Outro dos temas centrais da entrevista foi o impacto da pandemia na vida da Igreja. Perante a pergunta sobre se a Covid-19 tinha purificado, melhorado ou prejudicado a vivência cristã, D. Roberto Mariz respondeu com prudência e realismo: “houve de tudo”. Reconheceu que a pandemia teve um efeito “brutal” sobre a vida das pessoas, sobre a forma de se relacionarem e também sobre o ritmo da prática religiosa. Ao mesmo tempo, recusou leituras simplistas, admitindo que algumas comunidades retomaram a presença com renovado entusiasmo, enquanto outras continuam a sentir dificuldades. Nesse ponto, insistiu numa ideia especialmente relevante para o contexto do programa: rádio e internet ajudam, mas “uma coisa não substitui a outra, uma complementa a outra”.
Já na reta final da entrevista, a conversa entrou na pastoral familiar, na participação dos jovens e no futuro das comunidades. D. Roberto Mariz defendeu uma Igreja “aberta, acolhedora e integradora”, sem portas fechadas nem muros que travem o compromisso de quem quer entrar. Mais do que fazer coisas para jovens e famílias, sustentou, importa dar-lhes espaço real para serem sujeitos ativos, capazes de pensar, propor e construir. “Mais do que fazer coisas para a pastoral familiar ou para os jovens, eu diria que é dar espaço”, afirmou.
Daí passou para uma das expressões que mais marcaram a conversa: a “ditadura dos números”. O bispo auxiliar admitiu que, muitas vezes, a tentação é medir o valor da vida eclesial apenas pela quantidade, mas contrapôs que a verdadeira preocupação deve ser “o coração a coração e olhar cada pessoa.
Não negando o desafio da participação, recusou que o futuro da Igreja seja pensado apenas em lógica de massa, defendendo antes comunidades vivas, intensas e capazes de oferecer sentido, esperança e horizonte. Foi essa, afinal, a linha de fundo da entrevista: comunicar a fé, sim, mas comunicá-la com presença, humanidade e inteligência do tempo em que se vive.
A rádio continua atual “A pergunta que colocou, a pertinência ou não, a relevância da presença na Rádio, a resposta só pode ser uma, é sim, é sim. A sua pertinência é clara, é reconhecida e não passou de moda, digamos assim, naquilo que é um âmbito comunicacional.”
Fé comunicada sem imposição “Faz sentido, é importante, sentirmos dinâmicas comunicacionais que sejam atrativas, levando a mensagem de Evangelho e de Jesus àquelas que nos ouvem, àquelas que nos veem, nunca com proselitismo sobre ninguém, mas onde por paixão e atração possamos manifestar e transmitir este ardor, esta alegria, este entusiasmo.”
A visita pastoral como experiência de família “A Igreja não é uma pessoa isolada, não é um bispo isolado, não é um padre isolado, não é um cristão isolado, é uma vivência comunitária. Uma família é bom que sinta a alegria de estar junto.”
D. Roberto Mariz, bispo auxiliar do Porto