3 Feb 2026
Santiago de Riba - Ul Pinheiro da Bemposta Loureiro Cucujães Carregosa Fajões Concelho
As bandas do concelho parecem partilhar uma ideia aventada pelo presidente da Banda do Pinheiro da Bemposta: As infraestruturas como o Antigo Liceu, comprado para albergar a ‘Casa da Filarmonia’, são secundárias se não houver músicos para as encher”.
> Afinal presidentes das bandas desconheciam a compra do antigo liceu
A recente decisão da câmara municipal de Oliveira de Azeméis de adquirir o edifício do antigo Liceu por 800 mil euros abriu uma clivagem no setor cultural do concelho. Nenhuma das seis bandas de Oliveira de Azeméis foi consultada sobre a compra do imóvel ou sobre o projeto de dinamização que virá a dar-lhe vida.
A ambição de transformar Oliveira de Azeméis na “Capital Nacional da Filarmonia” deu um passo administrativo decisivo com a aprovação da compra do edifício do Antigo Liceu. No entanto, o que deveria ser um marco de união está a revelar-se um foco de discórdia profunda. O "apoio incondicional" das direções das bandas, invocado pelo Presidente Joaquim Jorge na reunião pública de 21 de janeiro, parece referir-se mais ao histórico de ‘apoios’ da autarquia do que à aceitação deste novo projeto. O Correio de Azeméis indagou os responsáveis diretivos das coletividades e descobriu um padrão de absoluta falta de diálogo: todas as seis bandas confirmam que não tinham conhecimento prévio da compra.
A Sociedade Filarmónica Cucujanense, através da sua presidente Maria Pinho Gomes, vem selar este consenso de silêncio institucional, sublinhando que a marca de ‘Capital’ é o resultado do trabalho diário de cada banda e não de um edifício. Este sentimento é partilhado por Adalberto Caçoilo (Pinheiro da Bemposta), que nota que um imóvel apenas "emoldura" a identidade, e por Sara Valente (Loureiro), que recorda que a alma das filarmónicas reside na proximidade com as suas comunidades locais.
O ponto de maior fricção continua a ser a logística de ensaios no centro urbano. Enquanto o presidente desvalorizou o entrave, argumentando que o município, ao investir milhões em grandes infraestruturas e transportes, encontrará soluções para a mobilidade dos músicos, as bandas mantêm-se céticas.
E muitos dos presidentes introduzem uma nota técnica relevante: a fragilidade dos instrumentos, que sofrem com mudanças constantes, sugerindo que o projeto só seria viável se a Câmara disponibilizasse instrumentos próprios no local. Para dirigentes como António Aguiar (Fajões) e Ana Júlia Matos (Santiago de Riba-Ul), a prioridade absoluta continua a ser o investimento direto na formação e não em infraestruturas que podem vir a "secar" os recursos destinados às freguesias.
Património e identidade local “A afirmação de Oliveira de Azeméis como capital resulta sobretudo de um trabalho contínuo e resiliente de todas as bandas, pelos seus músicos e dirigentes. A união entre nós já existe, sem que haja um local físico para o concretizar. A nossa identidade nasce na freguesia, pois só com esta proximidade à comunidade se cria o vínculo e o sentimento de pertença necessário para a continuidade da banda. Só poderemos ter uma opinião formada quando houver conhecimento detalhado sobre o projeto e a utilização prevista para esta Casa da Filarmonia.”
Sara Valente, presidente da Banda de Música de Loureiro.
Fragilidade técnica e logística “O trabalho diário de cada banda é a verdadeira marca do concelho. Não tínhamos qualquer conhecimento sobre esta compra e ainda não entendemos como irá funcionar o espaço. Com regularidade, não considero viável a deslocação dos instrumentos, pois são feitos de materiais frágeis e estar em mudanças constantes não é fácil; talvez instrumentos à disposição no local ajudassem. Temo que este projeto centralizador seja um impedimento aos recursos destinados às bandas, mas teremos de aguardar para ver se realmente irá acontecer.”
Maria Pinho Gomes, presidente da Sociedade Filarmónica Cucujanense.
Investimento em pessoas “Esta marca [‘capital da filarmonia’] já existe no terreno e é o somatório do trabalho secular das nossas bandas. Vemos com bons olhos a recuperação de um edifício emblemático, mas queremos que seja um espaço vivo, com estúdios e oficinas, e não apenas estético. A nossa prioridade será sempre o investimento nas pessoas; as infraestruturas são secundárias se não houver músicos para as encher. O maior receio é que a Casa da Filarmonia se torne um sugadouro de verbas que deveriam apoiar anualmente as bandas de música das freguesias.”
Adalberto Caçoilo, presidente da Banda de Música do Pinheiro da Bemposta.
Autonomia e descentralização “A identidade filarmónica do concelho deve manter-se descentralizada, pois as bandas são o orgulho de cada freguesia. Não sei as intenções deste plano.. Mas ninguém vai querer andar a transportar instrumentos pesados e volumosos com regularidade para o centro, abandonando as suas próprias salas de ensaio que já têm condições. A prioridade deveria passar por apoiar as filarmónicas a avançar diretamente nas freguesias em vez de concentrar recursos num ponto central.”
António Aguiar, presidente da Banda de Música de Fajões.
A Memória na Sede Social “Desconhecemos a existência de qualquer programa funcional e não temos dados concretos para formalizar uma opinião. Não estamos disponíveis para ceder permanentemente o nosso espólio histórico. A prioridade atual deve ser o reforço dos apoios diretos à formação de músicos. O investimento teria, sem dúvida, um melhor aproveitamento se fosse canalizado para as próprias bandas.”
Ana Júlia Matos, presidente da Banda de Música de Santiago de Riba-Ul.
Défice de informação “Em virtude de ainda não ter sido contactado pela câmara municipal sobre o assunto mencionado, de momento não tenho qualquer declaração a fazer. Quando houver informações sobre o tema terei disponibilidade para o abordar.”
António Aguiar, presidente da Banda de Música de Carregosa.