8 Aug 2026
A história, as tradições e identidade que fazem das Festas de La Salette um património vivo do concelho
> Mais de 150 anos de devoção, romaria e identidade no monte dos castros
No verão de 1870, uma seca prolongada ameaçava as culturas e fazia crescer o receio da fome. A 5 de julho, o pároco João José Correia dos Santos promoveu uma procissão de penitência, levando a imagem do Santo Cristo desde a Igreja Matriz até ao então chamado Monte do Crasto ou Monte dos Crastos.
Segundo a tradição que chegou aos nossos dias, a chuva caiu quando a romaria se encontrava no monte ou já regressava à vila. O acontecimento foi interpretado como resposta às preces da população e, no próprio local, o pároco propôs a construção de uma capela dedicada a Nossa Senhora de La Salette.
As obras começaram em 1871, mas demoraram vários anos. A capela ficou concluída em 1880 e foi inaugurada a 19 de setembro, data em que a imagem foi levada da Igreja Matriz para o monte. É esse o ano que o Município toma como início das Festas de La Salette.
Entre a fé e o encontro popular
As festas cresceram em torno de duas dimensões que nunca mais se separaram. Por um lado, o culto a Nossa Senhora de La Salette, as missas e as procissões. Por outro, a romaria popular, feita de música, comércio, diversões, fogo de artifício, encontros familiares e merendas.
A estrutura religiosa atual começa no primeiro domingo de agosto, quando a Procissão das Velas leva a imagem desde o santuário até à Igreja Matriz. A imagem permanece durante a semana na igreja e regressa ao parque, no segundo domingo, através da Procissão do Triunfo. As duas procissões atraem milhares de participantes e mantêm a ligação entre a cidade, a igreja e o monte onde nasceu a devoção.
À componente religiosa juntaram-se, desde cedo, os arraiais e a animação. Em 1923, as festas duraram apenas três dias, entre sábado e segunda-feira, mas começaram com três salvas de 21 tiros. O programa incluía bandas, fogo de artifício, procissão, romaria e até um jogo de futebol disputado no Campo da Lage entre a União Desportiva Oliveirense e uma equipa de São João da Madeira.
As bandas da Guarda Nacional Republicana do Porto e de Lisboa estavam entre as atrações mais aguardadas. Ao parque chegavam grupos acompanhados por violas, pandeiros e flautas, enquanto as ruas se enchiam de pessoas vindas da vila e de localidades vizinhas. A imprensa da época descrevia uma multidão que cantava, dançava e dava vivas à Santa.
Os comboios traziam a romaria
A dimensão regional das festas também se media nos transportes. Em 1924, os relatos davam conta de carruagens sobrecarregadas na Linha do Vale do Vouga, transportando visitantes para Oliveira de Azeméis. As festas já não pertenciam apenas aos habitantes da vila: atraíam forasteiros, comerciantes, músicos, devotos e famílias de outros concelhos.
O fogo de artifício era conhecido como "fogo do ar" e constituía um dos pontos altos das noites de sábado e domingo. O jornal elogiava o fogo produzido em Viana do Castelo e apresentava-o como um dos mais variados e ricos que até então tinham passado pela terra.
Na segunda-feira chegava a tradição mais familiar. As pessoas ocupavam mesas, canteiros e a sombra das árvores para partilharem comida e bebida. As merendas não nasceram de uma decisão administrativa nem de um programa oficial: afirmaram-se através do hábito das famílias que prolongavam a festa durante mais um dia.