Do ritual da "turrinha" ao guardião do monte

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Uma subida de Fé que culmina numa paisagem deslumbrante

> Património histórico e religioso ganha nova dignidade com a requalificação do Monte

A 477 metros de altitude, o Monte de São Marcos é o coração espiritual de Fajões. Entre a vista deslumbrante que alcança o mar e a resistência heróica do zelador Artur Correia, a tradição secular da turrinha mantém-se viva para acalmar os mais rebeldes.

No ponto mais elevado da freguesia de Fajões, inserido no Lugar de S. Mamede — berço onde o rio Ul começa o seu percurso — ergue-se o imponente Monte de São Marcos. 
O cume da colina reserva um ponto de observação sem igual, de onde se consegue avistar "as sete cidades"
A panorâmica é um quadro deslumbrante que se estende por toda a orla marítima, permitindo que o olhar viaje desde as águas de Aveiro até às margens da cidade do Porto. É um ponto de passagem histórico, onde os espaços de convívio convidam ao lazer e à descoberta da flora característica da região.

A resistência da fé e a "carolice" de um zelador
Falar de São Marcos exige que se honre a resistência de quem não deixou a chama apagar-se. Houve épocas em que o arraial silenciou e o brilho das festividades pareceu desvanecer, mas a força espiritual do monte nunca se extinguiu totalmente. 
Se hoje Fajões celebra o regresso em grande desta romaria, deve-o à "carolice" e à dedicação de Artur Correia. Na sua função de zelador da capela, ele foi o guardião solitário deste legado cultural. Mesmo nos períodos de menor fulgor, o Senhor Artur assegurou que as celebrações religiosas em honra do Santo permanecessem inalteradas. 
Foi o seu zelo que protegeu a continuidade da história, oferecendo às novas comissões uma base sólida para reerguer a tradição.

O ritual da "Turrinha"
A alma de São Marcos reside num costume que atravessa séculos e continua a intrigar quem nos visita: a "turrinha"
Durante a tarde de festa, é comum ver crentes e curiosos subirem à capelinha para cumprirem um ritual de contacto muito específica: Segurando a imagem de São Marcos, o senhor Artur utiliza a penha da mesma para tocar levemente na cabeça dos devotos. Segundo a sabedoria popular, este gesto tem o poder de acalmar os espíritos mais irrequietos.
Este simbolismo é tão marcante que Pinho Leal, na sua célebre obra "Portugal Antigo e Moderno", não resistiu a registar o fenómeno. O autor escreveu que quem tivesse filhos difíceis de domar os deveria levar à capela no dia da festa para os tornar mansos, acrescentando, com humor, que a própria caminhada a pé até ao topo seria suficiente para garantir algumas horas de sossego. 
Esta ligação entre a fé e uma certa pedagogia popular é o que torna o São Marcos de Fajões único no panorama das romarias regionais.
O palco para as celebrações de 2026 apresenta uma dignidade renovada. Estas são as primeiras festas que decorrem com a requalificação do Monte formalmente concluída, após a inauguração oficial a 1 de junho do ano passado. 

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