30 Jul 2026
Natural de São Martinho da Gândara, Olívia Pinho desenvolve esculturas e peças de iluminação através de técnicas cerâmicas em que o fogo participa diretamente no resultado final
Professora emérita da Universidade do Porto, Olívia Pinho encontrou no barro um novo campo de investigação, no qual o rigor científico convive com a ação imprevisível do fogo.
Olívia Pinho dedicou a carreira ao ensino universitário e à investigação científica, mas foi na cerâmica contemporânea que encontrou uma nova forma de estudar a matéria e as suas transformações. Natural de São Martinho da Gândara, Oliveira de Azeméis, a professora emérita da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto encara a prática artística como uma continuidade da curiosidade que marcou o seu percurso académico.
“O barro entrou na minha vida não como ornamento, mas como pergunta”, afirma a artista, que vive no Porto. O conhecimento científico permanece no modo como observa estruturas e processos, mas o trabalho artístico obriga-a também a aceitar o acaso e resultados que não podem ser inteiramente antecipados.
As obras resultam da interação entre o barro, os óxidos, os vidrados e as diferentes atmosferas de cozedura. Em vez de procurar controlar todas as fases, Olívia Pinho acompanha a transformação da matéria e integra no resultado final os efeitos produzidos pelo fogo.
Formações rochosas, organismos marinhos, superfícies minerais e estruturas vegetais estão entre as principais referências do seu trabalho. Estes elementos não são reproduzidos de forma literal: surgem nas texturas, nas cores e nos volumes das peças, evocando paisagens situadas entre o mundo natural e a imaginação.
Entre as técnicas exploradas pela artista encontram-se o Raku Nú e o Saggar. Nestes processos, a combustão de materiais orgânicos, o contacto com minerais e as variações de temperatura deixam marcas impossíveis de repetir, fazendo de cada obra uma peça única.
“Habituei-me a procurar explicações, a estudar estruturas e a compreender processos invisíveis. Talvez por isso tenha sentido a necessidade de me aproximar de uma matéria onde o rigor convive com o imprevisível”, explica.
Nos trabalhos mais recentes, Olívia Pinho alargou a investigação à iluminação escultórica. A luz deixa de cumprir apenas uma função prática e passa a fazer parte da própria obra, revelando texturas, profundidades e transparências que permanecem ocultas quando a peça não está iluminada.
Em 2026, a artista inaugurou uma obra evocativa dos 50 anos da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto. A criação assinala o encontro entre o percurso académico desenvolvido naquela instituição e a prática artística que hoje prossegue.
“O instante de abrir o forno continua a ser um momento de encanto, onde pode surgir o inesperado, por vezes verdadeiramente maravilhoso”, resume Olívia Pinho.