15 May 2026
Albino Martins: “Aos 17 anos era já um jovem politicamente informado e pouco tempo depois decidi o meu futuro profissional, procurando retribuir à sociedade aquilo que dela recebi”
Professor Albino Martins revisita a escola de outros tempos
A propósito do tema “Escola de Outros Tempos”, que marca esta edição do Mercado à Moda Antiga, Albino Martins, antigo diretor do Correio de Azeméis, professor e ex-autarca, revisita memórias da escola antes e depois do 25 de Abril, num retrato feito de muros nos recreios, reguadas, exames de admissão e professores que deixavam marcas para a vida.
Albino Martins começa por situar o seu olhar entre duas épocas. “Não sendo suficientemente velho para recuar aos primórdios da generalização da escolaridade, também não sou assim tão novo que não consiga recordar e comparar a escola do antes e do pós Abril de 1974”, afirma.
É a partir desse lugar de memória que recupera uma escola em que a obrigatoriedade terminava, para muitos, na antiga quarta classe. “Sou do tempo em que se ia à escola obrigatoriamente até à quarta classe”, recorda, lembrando que só “os mais espertos e, sobretudo, os economicamente mais dotados” prosseguiam estudos, através do exame de admissão à escola industrial ou ao liceu.
Muros nos recreios
A escola desse tempo refletia também as desigualdades sociais e de género. Albino Martins fala de “um tempo de subalternização da mulher”, em que as raparigas raramente continuavam estudos.
A separação começava cedo. “Rapazes e raparigas, mesmo nos seus tenros 7, 8 anos, não se juntavam”, recorda. Havia escolas masculinas e femininas e, quando eram mistas, “um muro separava os recreios”, mantendo-se as turmas separadas.
O retrato desse tempo completa-se com outras regras que hoje parecem distantes, mas que ainda pertencem à memória do século XX português. Albino Martins lembra que, “não muito distante”, estava também a época em que uma professora do ensino primário só podia casar com autorização do Estado, e desde que o futuro marido cumprisse determinados requisitos, incluindo rendimentos. Era mais uma expressão das normas sociais e políticas do Estado Novo, que entravam também pela escola e pela vida privada dos professores.
Ao ambiente moral e social juntava-se uma disciplina rígida. “Ao rigor das aprendizagens juntavam-se os rígidos métodos de ensino à força dos castigos corporais”, refere, evocando “as reguadas e não só”.
Os professores do ensino primário, sobretudo os homens, seguiam “a norma da época”, embora, com o tempo, alguns se tenham adaptado às novas pedagogias.
O professor que mudou o caminho
No final da década de 1960, já adolescente, quando frequentava o 4.º ano dos liceus — atual 8.º ano — Albino Martins encontrou um professor de Português que viria a ser decisivo no seu percurso.
“Coube-me em sorte um jovem professor de Português com ideias muito à frente”, recorda. Foi ele, diz, que lhe incutiu “o gosto pela escrita” e que ajudou a moldar uma geração nos ideais “da liberdade, da justiça social, do humanismo, da democracia”.
A partir das eleições de 1969, que recorda como “célebres e falseadas”, intensificou-se a consciência política. “Apenas com 14 anos, distribuí clandestinamente panfletos do MDP/CDE”, lembra.
Nos anos seguintes, a música também ajudou a formar esse olhar crítico. “As canções de intervenção de Zé Afonso, Francisco Fanhais, Adriano Correia de Oliveira e muitos outros eram a nossa música preferida”, recorda.
“Sem aquele docente tudo teria sido diferente”
Albino Martins não hesita em atribuir a esse professor uma influência profunda no seu percurso. “Este breve testemunho demonstra o que pode representar um professor”, afirma.
E vai mais longe: “Sem aquele docente na minha formação tudo teria sido diferente.” A partir daí, explica, em 43 anos de vida ativa construiu um percurso profissional ligado ao ensino, ao jornalismo e à intervenção autárquica, sempre marcado pela escrita e pela participação pública.
Da Madeira à Telescola
A experiência como professor começou no 1.º ciclo, durante dois anos, na ilha da Madeira, em condições que descreve como “impensáveis”.
A imagem é forte: “uma turma de 40 alunos amontoados numa sala pequeníssima”, onde “as lagartixas atravessavam as paredes pelos buracos onde passava a luz do sol”. Mais duro ainda é o retrato social: havia crianças que “chegavam de manhã à escola já alcoolizadas”.
Depois viria a Telescola, onde permaneceu cerca de 15 anos, numa experiência que define como “muito interessante”, na qual “muito ensinou e muito aprendeu”.
Nos últimos 12 anos letivos foi professor de Português e de História e Geografia de Portugal, fase em que diz ter-se sentido mais realizado. Aí procurou “imitar os mestres” que mais o tinham marcado positivamente.
A escola como marca de vida
O testemunho de Albino Martins dá espessura ao tema da “Escola de Outros Tempos”, recuperando uma realidade ainda viva na memória de muitos portugueses: a escola das carteiras antigas, dos exames de admissão, da disciplina severa, dos recreios separados e dos professores capazes de abrir horizontes.
“O que fui e o que sou devo-o em grande parte aos professores que tive e à qualidade da formação que recebi”, resume.
Há mais de meio século as fotografias eram pouco frequentes. Com 10 anos, a primeira foto formal de Albino Martins para o bilhete de identidade