Festival das Sopas > Sopa do vidreiro do Grupo Folclórico de Cidacos abriu discussão sobre a receita tradicional

Concelho

O Grupo Folclórico de Cidacos apresentou uma versão oliveirense da sopa do vidreiro, diferente da receita com bacalhau associada à Marinha Grande.

O Grupo Folclórico de Cidacos levou ao Festival das Sopas uma versão oliveirense da sopa do vidreiro, recuperada a partir de memórias familiares e da ligação histórica à indústria do vidro. A proposta não chegou ao pódio, mas a avaliação do júri, liderado pelo chef Lindolfo, acabou por trazer para a mesa uma questão interessante: a receita apresentada em Oliveira de Azeméis é diferente da versão associada à Marinha Grande.

António Resende, presidente do Grupo Folclórico de Cidacos, já tinha antecipado que a intenção não era reproduzir simplesmente a sopa do vidreiro mais divulgada. O responsável procurou recuperar uma versão ligada aos trabalhadores do vidro de Oliveira de Azeméis, apoiando-se, entre outras referências, na história familiar da mulher.

O sogro de António Resende foi vidreiro e teve 18 filhos. Numa casa com poucos recursos, explicou, o bacalhau nem sempre estava ao alcance da família e a carne de porco criada em casa ou partilhada entre vizinhos tinha maior presença na alimentação. É a partir dessa realidade que situa uma sopa do vidreiro oliveirense mais próxima da sopa à lavrador, recorrendo a carne de porco desfiada.

"A sopa do vidreiro de Oliveira de Azeméis é parecida, mas é carne desfiada de porco", explicou António Resende, que antes do concurso assumia estar a fazer um trabalho de recolha sobre esta variante da receita. A ideia, dizia, era "promover o que é de Oliveira de Azeméis".

Lindolfo encontrou uma sopa diferente da que conhecia

A diferença tornou-se evidente quando o prato chegou ao júri. O chef Lindolfo, com referências familiares também ligadas aos vidreiros, reparou desde logo na presença de tomate e contrapôs a receita que conhecia.

"A sopa de vidreiros que eu como lá não leva tomate. Leva muito alho, cebola, azeite, bacalhau. E é com a água do bacalhau que dá o verdadeiro sabor", comentou durante a prova.

Lindolfo associou essa versão à tradição segundo a qual os trabalhadores levavam a sopa para o emprego, acompanhada por uma laranja como sobremesa. A fruta, contou, podia permanecer vários dias no farnel quando não era comida.

A divergência não é necessariamente uma contradição. António Resende já distinguia, antes do festival, a receita que procurava recuperar em Oliveira de Azeméis daquela que conhecia da Marinha Grande. Nesta última, descrevia uma preparação com pão, batata, alho, azeite, bacalhau e ovo escalfado, dispostos por camadas.

No caso oliveirense, sustentava que as limitações económicas das famílias dos trabalhadores ajudariam a explicar substituições e alterações nos ingredientes. "O ovo, por exemplo, o bacalhau, nem sempre estava presente, porque nem estava sempre acessível às carteiras das pessoas", afirmou.

Foi essa variante que o Grupo Folclórico de Cidacos decidiu colocar à prova no Festival das Sopas. António Resende admitia, antes mesmo da avaliação, que não sabia como o júri iria reagir à diferença entre receitas, mas deixava definida a opção: "Vou promover o que é de Oliveira de Azeméis."

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