28 Nov 2025
Mário Rebelo, da Macro-Moldes, argumenta que o grande choque tecnológico no país foi protagonizado pela indústria dos moldes
>Macro-Moldes
Fundador da Macro-Moldes e um dos nomes históricos do setor, Mário Rebelo revisita o seu percurso, relembra a dureza dos primórdios da indústria e sublinha o papel determinante que os moldistas tiveram na modernização tecnológica do país. À beira de mais uma Semana de Moldes, o empresário defende que o setor vive um momento desafiante, mas continua a ser uma das áreas mais evoluídas da engenharia nacional.
A INDÚSTRIA DOS MOLDES E A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA DO PAÍS
Mário Rebelo é perentório ao recordar a forma como os moldes transformaram a engenharia e a capacidade tecnológica portuguesa. Sem rodeios, afirma que a indústria foi o motor silencioso da modernização produtiva do país.
“Os moldes foram quem trouxe para Portugal o CNC, o CAD, o CAM, o CAE. Fomos a primeira área industrial a usar máquinas de elevada tecnologia quando isso ainda era impensável em praticamente todos os outros setores.”
“No início, ninguém sabia o que era trabalhar por coordenadas X e Y. Eu próprio andei a dar aulas dentro da empresa para explicar conceitos básicos de desenho assistido por computador, porque era tudo novo.” “Hoje trabalhamos com máquinas muito sofisticadas, com softwares muito sofisticados, com computadores muito sofisticados. A formação é permanente.”
“Lá em baixo já não há papel. Hoje fazemos reuniões de computador com cinco países ao mesmo tempo, coisa que há vinte anos seria considerada ficção científica.”
“Temos uma retificadora de grandes dimensões que presumo ser a maior de Portugal. Foi feita aqui a partir de ‘lixo’. Comprámos a carroçaria na Alemanha de Leste e reconstruímos tudo, eletrónica incluída. Está a trabalhar há 30 anos.”
O PRINCÍPIO: UMA INDÚSTRIA “PARA MALUCOS”
A memória do fundador da Macro-Moldes regressa sempre ao mesmo ponto: quem começou nos moldes há 40 ou 50 anos tinha de ter uma boa dose de ousadia.
“Há 40 anos era preciso ser muito maluco para começar a fazer moldes. Era um investimento intenso, arriscado, e não existiam máquinas, nem formação, nem mercado.”
“Cada posto de trabalho numa fábrica de moldes de média dimensão custa hoje meio milhão de euros. Mesmo há décadas, proporcionalmente, era igual. Sempre foi preciso coragem para entrar neste setor.”
ENTROU POR ACASO — E FICOU POR CONVICÇÃO.
“O meu primeiro contacto com os moldes foi porque um antigo professor me chamou para vir tomar conta de uma empresa que estava falida. Eu vinha da mecânica e rapidamente percebi que os moldes eram uma das áreas mais evoluídas e mais completas da metalomecânica.”
“Era mais difícil fazer moldes naquele tempo do que hoje. Com máquinas limitadas fazíamos peças complexas. Era preciso imaginação e habilidade natural.”
DA MECÂNICA À FUNDAÇÃO DA MACRO-MOLDES
Rebelo descreve um percurso longo, marcado por risco e trabalho quase ininterrupto. Antes de fundar a Macro-Moldes, já tinha ressuscitado empresas, dirigido operações complexas e estudado profundamente o setor.
“Trabalhei muitas vezes 24 horas num dia. Era o preço a pagar para fazer nascer uma empresa de moldes.”
“Comecei a ser industrial em 1977. Depois criei a Alfamolde e mais tarde a Macro-Moldes. Sempre gostei da complexidade dos moldes: mecânica de fluídos, resistência de materiais, termodinâmica, eletrónica, sensores… está tudo lá.”
Hoje, o grupo que fundou inclui quatro empresas, com um universo de 80 a 90 trabalhadores, altamente qualificados, como sublinha.
“Nunca tive 100 empregados. Quando chegava a 99, parava, porque sempre quis ser uma pequena ou média empresa — nunca uma grande.”
A indústria dos moldes é apresentada como uma escola permanente: para os trabalhadores — e também para o próprio fundador.
“Quando comecei nas feiras, não havia ninguém com a minha formação. Eu era o tradutor, porque não havia ninguém que falasse francês ou inglês. O setor não tinha formação escolar.”
Com o tempo, a empresa passou a exigir perfis mais qualificados, acompanhando a complexidade técnica crescente.
“Hoje temos mais alguns engenheiros, no meio de 80 a média é técnica, a média é muito elevada.”
A paixão pela engenharia levou-o a fomentar o desenvolvimento, pela própria empresa, de equipamentos próprios que hoje dão vantagem competitiva ao grupo.
“Há 30 anos começámos a fabricar eletro-mandrinos (cabeças de alta velocidade). Cheguei a vendê-las para todo o mundo. Depois deixei de vender e passei a produzir só para nós — dava-nos uma vantagem demasiado grande.”
POSICIONAMENTO NO MERCADO MUNDIAL
Apesar da dimensão relativamente pequena, a Macro-Moldes opera globalmente.
“Os nossos clientes são de vários setores e geografias porque sempre procurámos problemas complexos, não produção em massa.”
TECNOLOGIA: A NECESSIDADE PERMANENTE DE INVESTIR
A atualização tecnológica é apresentada como condição de sobrevivência.
“Cada máquina nova que eu compro é um milhão de euros. Para amortizar um milhão é preciso trabalhar muito. Mas se eu não comprar máquinas novas, não faço coisas novas. De repente deixa de rolar.”
“O meu melhor empregado é o guarda-noturno. As máquinas trabalham sozinhas toda a noite. Quem não tiver robôs e automação vai fechar a loja.”
UM GRUPO PEQUENO, MAS GLOBAL
Apesar da dimensão controlada, o grupo opera internacionalmente.
“Hoje tenho clientes no mundo todo. Faço muito pouco para o setor automóvel porque não quero depender de clientes mil vezes maiores do que eu.”
“Sempre procurámos problemas complexos, não produção em massa.”
OS DESAFIOS ATUAIS DO SETOR
Rebelo reconhece que a indústria no geral está na iminência de ver ainda mais ampliadas as dificuldades. Os moldes não irão ser exceção.
“Os moldes vão atravessar uma crise grave. Muitas indústrias europeias estão a parar e isso reflete-se imediatamente no nosso setor.”
“Os carros estão a mudar: menos peças, mais eletrónica. E isso impacta todo o ecossistema que depende da engenharia de produto.” A automação é, para ele, inevitável.
UMA VISÃO DE FUTURO ANCORADA NA TECNOLOGIA
Apesar dos alertas, Rebelo mantém a mesma convicção que o levou a fundar o grupo.
“Nunca quis ser um grande industrial. Quis ser um industrial com visão de futuro, a olhar de cima, com uma visão global.”
“O que sempre nos distinguiu foi termos tecnologias próprias, máquinas feitas por nós e a capacidade de resolver problemas que outros não conseguiam resolver.”
Inovação: dos canais quentes à injeção de madeira
O fundador da Macro-Moldes explica que a diferenciação sempre foi a chave do posicionamento internacional da empresa. Um dos feitos tecnológicos mais relevantes foi a criação de um processo pioneiro de injeção de compósitos de madeira. O grupo também tem marcado presença em projetos industriais de elevada complexidade, como um turbo que equipou uma moto BMW. “Somos o maior fabricante português de canais quentes. E sou, que eu conheça, o único que exporta sistemas de canais quentes para o estrangeiro”.
“Fomos a primeira empresa no mundo a injetar uma peça com 70% de madeira. Criámos uma técnica para conseguir transportar madeira num fluido e injetá-la. Ganhámos um prémio de criatividade na Alemanha. Há três anos fizemos o projeto do turbo de uma superbike desenvolvida pela Alpine para a BMW. A moto foi campeã do mundo de superbikes. E há cerca de três anos fomos distinguidos com o prémio Kayzen pelo grau de inovação que apresentamos".
Mário Rebelo acrescenta que o grupo Macro criou a primeira empresa produtora de material de corte para a metalurgia em Portugal."