28 Nov 2025
Carlos Silva, administrador da Moldoplástico
> Empresa celebrou recentemente o 70.ºaniversário
A Moldoplástico nasceu quando a indústria dos moldes estava ainda a dar os primeiros passos em Oliveira de Azeméis. Décadas depois, um jovem de 17 anos, recém-chegado do Correio de Azeméis, iniciaria ali um percurso que o levaria à administração da empresa. Esta é a história paralela de um setor, de uma empresa e de um homem que cresceu com ambos.
O primeiro emprego de Carlos Silva foi no Correio de Azeméis
A entrada repentina na Moldoplástico… para nunca mais sair
Com apenas 17 anos e o 12.º técnico profissional em informática e gestão, Carlos Silva lançou-se à procura de um trabalho que lhe permitisse preparar-se para o ingresso no ensino superior. Bom aluno a português, o primeiro emprego que teve foi no Correio de Azeméis, onde corrigia textos e apoiava a redação.
Mas foi uma curtíssima passagem pelo jornal, já que quatro dias depois, numa noite, lhe bateram à porta para o convidar para uma entrevista na Moldoplástico. A empresa procurava alguém com apetência para informática, capaz de integrar um departamento de programação — algo praticamente pioneiro no início da década de 1990. Carlos aceitou, entrou na segunda-feira seguinte e nunca mais saiu.
Ao longo dos anos, passou por vários departamentos, acumulando conhecimento prático e estratégico. Tornou-se diretor de produção em 2008, assumiu funções comerciais e foi chamado a reorganizar uma empresa associada ao grupo. Em 2011, após a perda de um dos administradores, integrou a administração da Moldoplástico e da João Lúcio. Hoje, é uma das figuras mais marcantes do setor no concelho e testemunha privilegiada da evolução tecnológica e organizacional dos últimos trinta anos.
A Moldoplástico surgiu numa fase em que a indústria de moldes portuguesa começava a consolidar-se e a afastar-se das suas raízes artesanais. Em Oliveira de Azeméis, o setor ganhou força graças à transferência de conhecimento técnico que chegava de fora, ao mesmo tempo que se formavam profissionais capazes de transformar o concelho num centro industrial de referência. A Moldoplástico destacou-se nesse movimento, assumindo desde logo um importante papel na especialização do setor, tornando-se numa verdadeira escola de profissionais no concelho.
O atual administrador, Carlos Silva, juntou-se à família ‘apenas’ em 1991 e ainda assim testemunhou uma transformação industrial profunda, embora nessa altura a Moldoplástico já tivesse dimensão, cultura de rigor e capacidade de executar projetos complexos. É neste contexto que entra Carlos Silva, que viria a crescer dentro da empresa até à administração.
Do trabalho artesanal aos sistemas digitais avançados, a evolução da maquinaria e do desenho técnico alterou radicalmente a forma como se produz. Os modelos de madeira, as cópias manuais e os cálculos matemáticos feitos à mão deram lugar a softwares de conceção, máquinas CNC de alta precisão e fluxos de trabalho totalmente digitalizados. Mesmo para quem viveu somente estas duas eras, a diferença é já como “da noite para o dia” diz Carlos Silva ao Correio de Azeméis.
Mas a indústria enfrenta hoje desafios muito diferentes. A dependência do setor automóvel, as pressões de preço e de prazos e a escassez de mão-de-obra (no geral, e não somente qualificada) são fatores decisivos. A Moldoplástico, enfatiza o administrador, tem procurado combater estas limitações com inovação, diversificação e capacidade de resposta em projetos de grande dimensão.
Ainda assim, para Carlos Silva o maior obstáculo é encontrar pessoas dispostas a trabalhar num setor exigente, onde o rigor e a pressão são constante.
ORIGENS DA INDÚSTRIA E PRIMEIROS PASSOS
“As primeiras empresas de moldes surgiram muito ligadas à Marinha Grande e à tradição do vidro. Foi o Aníbal Abrantes que começou praticamente com tudo isto, porque era ele que dinamizava o setor e trazia conhecimento de lá para cá. Aqui em Oliveira de Azeméis também houve uma empresa pioneira, a Metal Moura, que acabou por não correr tão bem, mas que marcou o início. Depois as pessoas foram aprendendo com quem já sabia e isso permitiu que a indústria começasse a crescer nos dois concelhos.”
A MOLDOPLÁSTICO NO DESENVOLVIMENTO DO SETOR
“A Moldoplástico não foi a primeira empresa de moldes, mas foi a primeira a trabalhar isto a sério, com consistência e com dimensão. Muita gente que hoje é empresário passou primeiro por aqui, aprendeu aqui, ganhou experiência aqui. Havia pessoas como o senhor António, que foi o primeiro funcionário, e muitos outros que depois montaram empresas como a Ancal, a JDD ou até negócios nos Estados Unidos. A Moldoplástico acabou por ser uma referência e uma verdadeira escola para toda esta zona.”
PERCURSO DENTRO DA EMPRESA
“Passei por vários departamentos e fui aprendendo tudo o que havia para aprender, sempre com dedicação. Em 2008 tornei-me diretor de produção, depois assumi a área comercial e mais tarde fui para a João Lúcio reorganizar a empresa, porque estava numa situação difícil. Quando o senhor Luís Pinheiro faleceu, em 2011, acabei por assumir o lugar dele e passei a ser administrador das duas empresas. Foi um percurso natural, resultado dos anos todos aqui dentro.”
COMO A TECNOLOGIA MUDOU TUDO
“Quando eu entrei, os desenhos eram todos feitos em papel e parecia que estávamos a ler cartas do mar, era risco por todo o lado. Os modelos eram feitos em madeira e depois tínhamos copiadores que passavam aquele modelo, devagarinho, ponto por ponto. Era preciso muita matemática, muito cálculo, e era tudo manual. A tecnologia mudou completamente o setor: softwares de desenho, máquinas CNC… foi uma evolução enorme em todos os níveis.”
OS DESAFIOS DO PRESENTE
“Hoje o maior problema é a falta de pessoas para trabalhar, mesmo sendo um setor onde se ganha bem. Há máquinas que ficam paradas no segundo e terceiro turno porque simplesmente não há operadores. Isto é transversal a quase todas as empresas de moldes. Trabalhamos 24 horas, mas não conseguimos completar as equipas. Temos apostado na subcontratação para conseguir acompanhar o volume de trabalho, porque às vezes é a única forma de cumprir prazos e manter margem.”
A NECESSIDADE DE ADAPTAÇÃO
“Os prazos são cada vez mais apertados e a pressão é enorme. A indústria automóvel está num período complicado e, como é ela que alimenta a maioria das empresas de moldes, o impacto é grande. A nossa vantagem é trabalhar em vários setores e não depender só de um. Temos procurado projetos de grande dimensão para ganhar escala e estamos sempre a explorar novas tecnologias. É a única forma de continuar na linha da frente.”
Com o tempo, surgiram divergências entre os sócios. Quando foi necessário investir numa nova máquina — considerada “revolucionária” para a altura — o investidor inicial recusou colocar mais dinheiro. Acabou por sair da sociedade, abrindo espaço a que a empresa seguisse um caminho mais ambicioso e tecnológico.
A Moldoplástico rapidamente se tornou uma referência regional e uma incubadora de talento que marcou profundamente o desenvolvimento industrial do concelho.
Ao longo das décadas, a empresa atravessou mudanças tecnológicas profundas: dos modelos em madeira às copiadoras manuais, dos araldites e areias aos sistemas CNC, dos desenhos em papel aos softwares de conceção e maquinação. A empresa conseguiu sempre acompanhar esta evolução, expandindo setores, modernizando processos e mantendo uma reputação de seriedade técnica.
A Moldoplástico permanece como uma das empresas fundadoras do ecossistema de moldes no concelho: não apenas pela sua produção, mas porque deu origem a dezenas de carreiras e a várias empresas que continuam a marcar o setor.
>António Rodrigues foi o trabalhador n.º 1
Um pouco de história da Moldoplástico
A entrada repentina na Moldoplástico… para nunca mais sair
Com apenas 17 anos e o 12.º técnico profissional em informática e gestão, Carlos Silva lançou-se à procura de um trabalho que lhe permitisse preparar-se para o ingresso no ensino superior. Bom aluno a português, o primeiro emprego que teve foi no Correio de Azeméis, onde corrigia textos e apoiava a redação.
Mas foi uma curtíssima passagem pelo jornal, já que quatro dias depois, numa noite, lhe bateram à porta para o convidar para uma entrevista na Moldoplástico. A empresa procurava alguém com apetência para informática, capaz de integrar um departamento de programação — algo praticamente pioneiro no início da década de 1990. Carlos aceitou, entrou na segunda-feira seguinte e nunca mais saiu.
Ao longo dos anos, passou por vários departamentos, acumulando conhecimento prático e estratégico. Tornou-se diretor de produção em 2008, assumiu funções comerciais e foi chamado a reorganizar uma empresa associada ao grupo. Em 2011, após a perda de um dos administradores, integrou a administração da Moldoplástico e da João Lúcio. Hoje, é uma das figuras mais marcantes do setor no concelho.