2 Apr 2026
Fanny Martins*
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Vivemos numa era de conexão constante. Mensagens instantâneas, redes sociais, informação a cada segundo. Nunca estivemos tão próximos e, ao mesmo tempo, nunca estivemos tão distantes. Faz parte da nossa evolução e está tudo certo, mas é importante pararmos para nos adaptarmos, como sempre fizemos ao longo da nossa longa história, e para isso é importante perceber pormenores importantes.
A nível biológico, o uso frequente de redes sociais e dispositivos digitais está associado à libertação de dopamina, um neurotransmissor ligado ao prazer e à recompensa. Cada notificação, cada “like” ou interação funciona como um pequeno estímulo que reforça o comportamento e cria um ciclo de procura constante. Estudos mostram que este padrão pode aumentar a dependência digital e diminuir a capacidade de tolerar o silêncio, o aborrecimento e até a presença plena, afastando-nos de experiências mais profundas e emocionalmente reguladoras (Montag & Diefenbach, Addictive Behaviors Reports, 2018).
A tecnologia trouxe-nos e continua a trazer avanços incríveis, aproximou geografias, facilitou o acesso ao conhecimento e simplificou o quotidiano. Mas, no meio de tanta velocidade, há algo que, silenciosamente, se vai perdendo: o estar presente. O olhar. O toque. A escuta verdadeira. E por isso, trago hoje a consciência da importância de humanizar. Humanizar é escolher estar (verdadeiramente) quando se está com alguém. É trocar a pressa pela atenção, o automático pela consciência. É permitir conversas sem distrações, relações com profundidade, vínculos que não dependem apenas de um ecrã.
A ciência alerta-nos para este desequilíbrio. Estudos mostram que o uso excessivo de tecnologia e redes sociais está associado a um aumento de sentimentos de solidão, ansiedade e sintomas depressivos, especialmente quando substitui o contacto humano direto (Twenge et al., Journal of Social and Clinical Psychology, 2018). Não porque a tecnologia seja o problema, mas porque, quando usada sem consciência, pode afastar-nos daquilo que mais regula o nosso sistema emocional: a ligação humana real.
Precisamos de ser vistos, ouvidos, tocados. Precisamos de presença emocional, algo que nenhum dispositivo consegue substituir (pelo menos até à data).
No gabinete, esta realidade é cada vez mais evidente. Pessoas rodeadas de contactos, mas carentes de conexão. Conversas frequentes, mas superficiais. Partilhas constantes, mas pouco sentidas. E é nesse vazio que a mente enfatiza a fragilidade.
Humanizar não é rejeitar a tecnologia. É usá-la com consciência, sem perder o essencial. É saber pousar o telemóvel. É lembrar que, por detrás de cada ecrã, existe alguém com emoções reais, histórias reais, necessidades reais.
Num mundo cada vez mais digital, cuidar da saúde emocional passa, inevitavelmente, por voltarmos ao simples. Por isso, deixo-te este convite: Hoje, escolhe estar verdadeiramente presente numa conversa. Ouve sem interromper. Olha com atenção. Sente.
Porque, no meio de tanta ligação virtual, é a conexão humana que continua a curar e a cuidar.
*Especialista em Trauma e Saúde Emocional. Terapeuta formada em Hipnose Clínica para crianças, adolescentes e adultos. Autora do método de saúde emocional A.S.E.S.
Mais informações em www.asdeser.pt