21 May 2026
> Carlos Costa Gomes
Promover todas as famílias é um sinal ético de humanidade. Escolas que apagam o dia do pai e da mãe, trocam a sensibilidade pedagógica por uma visão e imposição ideológica e cultural.
1. Ética do reconhecimento humano: Eticamente, pai e mãe não são apenas funções biológicas. Representam experiências humanas profundas ligadas ao cuidado, proteção, autoridade, pertença e formação da identidade. Mesmo quando essas funções são exercidas de modo imperfeito (ou por outras pessoas) continuam a ter um significado simbólico forte.
2. Ética da inclusão: Ao mesmo tempo, há um dever ético de proteger crianças que vivem situações familiares difíceis: luto; abandono; divórcio; violência; ausência parental; adoção; famílias não tradicionais. Uma escola não deve expor crianças à humilhação emocional ou criar momentos de exclusão. O impulso para criar um “Dia da Família” nasce muitas vezes dessa preocupação legítima. Eticamente, esse objetivo é defensável: evitar sofrimento desnecessário e reconhecer diferentes contextos familiares. Incluir nunca deveria significar apagar. Há crianças criadas por mãe e pai, só pela mãe, só pelo pai, pelos avós, por famílias adotivas ou por outras estruturas de amor e cuidado. Todas merecem respeito, dignidade e acolhimento.
3. O problema ético da substituição: A questão moral mais controversa surge quando inclusão deixa de significar “acrescentar” e passa a significar “substituir”. Há diferença entre: ampliar reconhecimento e apagar referências anteriores. Se uma instituição transmite implicitamente que pai e mãe são categorias dispensáveis ou irrelevantes, entra-se numa posição filosófica específica sobre família e identidade humana. Nesse ponto, já não estamos apenas perante sensibilidade pedagógica, mas perante uma visão cultural e ideológica sobre o que é a família.
4. Neutralidade e ideologia: Uma escola dificilmente é neutra em tudo. Mas existe uma diferença ética importante entre: ensinar o respeito por diferentes realidades e promover uma redefinição cultural profunda sem debate transparente. O princípio ético da proporcionalidade exige equilíbrio: proteger crianças vulneráveis; reconhecer diferentes famílias; sem negar o valor específico do dia do pai e da mãe.
5. A verdadeira inclusão não elimina diferenças — integra-as. Não apaga palavras, histórias ou papéis fundamentais para evitar desconforto institucional. Uma escola deve ensinar respeito por todas as famílias, mas também com honestidade intelectual, cultural e humana afirmar o valor próprio de ser mãe e de ser pai, mesmo quando a vida concreta nem sempre permite que estejam presentes da forma ideal. Transformar tudo isto em conceitos neutros pode parecer moderno. Mas uma sociedade sem referências claras torna-se mais pobre simbolicamente e eticamente mais injusta. Uma escola não é justa e nem promove a inclusão, quando a reboque de questões ideológicas, algumas realidades (como o de ser pai e mãe) são silenciadas.
* Presidente do Centro de Estudos de Bioética