O edifício do Antigo Liceu de Oliveira de Azeméis chegou a estar no mercado imobiliário por um milhão de euros.
A aquisição do edifício histórico do antigo Liceu por 800 mil euros foi aprovada e vai avançar, mas gerou um debate aceso na última reunião de câmara. A coligação AD (PSD-CDS) questionou a falta de planeamento, a ausência de consulta às bandas filarmónicas e a estratégia de centralização do investimento público, que Pedro Marques considera estar a "secar" o centro urbano.
A proposta de compra do antigo Liceu para a instalação da Casa da Filarmonia avançou com os votos da maioria socialista, mas a oposição (que se absteve na votação) deixou sérios avisos sobre o que considera ser apenas o cumprimento de uma "promessa eleitoral" sem programa funcional definido.
Privados ou setor público? A dúvida de Pedro Marques
Um dos pontos mais críticos da discussão foi trazido pelo vereador Pedro Marques (AD). Ao analisar o investimento, o autarca questionou se o executivo ponderou o interesse do mercado antes de comprometer o erário público. “Gostaria de saber se foi estudada a utilidade para uma exploração de privados, para a questão da hotelaria ou eventualmente do empreendedorismo jovem”, indagou o vereador, sugerindo que o imóvel poderia atrair investimento privado para dinamizar a zona.
Marques lamentou que, enquanto o centro urbano "seca" e as freguesias carecem de investimento, a autarquia continue a concentrar recursos num edifício de difícil adaptação. Recordou ainda dossiês pendentes, como a Estalagem, e criticou a falta de clareza: “Mais valia dizer 'vamos comprar o edifício, ponto'. Não nos resumimos às seis bandas”. Segundo o vereador, os munícipes não compreenderão o gasto: “Os oliveirenses não vão perceber esta aquisição, por muito orgulho que a gente tenha pelas bandas”.
Logística e "distância" das coletividades
Ainda assim, foi João Costa (AD) a abordar o tema de modo mais apaixonado. Ligado que é ao mundo das bandas, endureceu o tom ao focar-se na aplicabilidade prática da ‘Casa da Filarmonia’. O vereador afirmou ter ouvido quem está no terreno e desmentiu o apoio unânime das coletividades. “Eu não sei se o senhor tem noção dos comentários que andam a circular pelas bandas, porque eu sim já falei com todas, e não só com os seus presidentes, mas com os próprios músicos”, alertou.
Para a oposição, a ideia de ensaios mensais no centro é irrealista face à logística das bandas, que já possuem sedes e fazem ensaios abertos. “Não sei se tem noção da dificuldade que é a banda sair uma vez por mês para fazer um ensaio neste espaço que vocês querem criar”, questionou Costa.
O vereador defendeu que a verdadeira valorização deveria passar por formação e maestros estrangeiros, e não por "paredes": “Vamos investir largos milhões de euros nisto [...]”, enfatizou, lembrando o investimento adicional que implicará a requalificação do edifício.
Joaquim Jorge fala em "falta de visão" da oposição
Perante as críticas, o Presidente da Câmara, Joaquim Jorge, reagiu com ironia, classificando a postura da AD como "conservadora" e carente de arrojo. “Surpreendo-me que um jovem tenha um quadro mental de banda e vestê-lo [...] se fosse empresário certamente que com essa capacidade inovadora não tomava nenhuma medida de risco”, retorquiu, dirigindo-se a João Costa, a quem acusou de ter mentalidade de “velho do Restelo”.
Joaquim Jorge defendeu a compra como um negócio financeiramente responsável, lembrando que a autarquia gastou 1,8 milhões de euros em rendas naquele espaço entre 1998 e 2017. Quanto ao futuro, o edil garantiu que o programa funcional será desenhado com especialistas: “A nossa preocupação não são as inaugurações [...] governamos pelas gerações, não pelas eleições”.