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Correio de Azeméis

22 Jan 2026

Padre António Tavares da Silva: a grandeza silenciosa de uma vida inteiradedicada à missão

Opinião

Manuel Terra*

Opinião

Há vidas que não se explicam apenas pela biografia: explicam-se pela marca que deixam. A trajetória do Padre António Tavares da Silva, nascido na Graciosa, freguesia de Loureiro, em 10 de março de 1930, é uma dessas histórias que atravessam continentes, épocas e transformações profundas — sempre guiada por uma firmeza tranquila e uma entrega que nunca precisou de alarde para ser grande.
Desde cedo, deixou claro que a sua vocação não se confinaria aos limites da sua terra natal. O juramento missionário em 15 de setembro de 1952 e a ordenação sacerdotal em Cucujães, em 29 de junho de 1956, foram apenas os primeiros passos de uma caminhada que, no ano seguinte, o levaria ao norte de Moçambique, para a recém-criada diocese de Porto Amélia (Pemba). Era 1957, e partir para África naquele tempo era um gesto de fé, coragem e disponibilidade muito mais radical do que hoje conseguimos imaginar.
Durante anos, entregou-se à missão africana com o mesmo espírito que marcaria toda a sua vida: dedicação, presença e uma capacidade rara de adaptação às realidades humanas mais diversas. Em 1975, com a independência de Moçambique, regressou a Portugal. Mas não regressou “de mãos vazias”: trouxe consigo a maturidade de quem aprendeu com mundos diferentes e o sentido profundo de missão que seria o fio condutor de tudo o que veio depois.
Colocado no Seminário das Missões em Cucujães, continuou a servir, agora formando e acompanhando novos missionários. Mas o seu caminho ainda não estava completo. Em 1980, foi enviado para o Brasil, onde desenvolveu intensa atividade pastoral. E, como sempre, não foi apenas desempenhar funções: foi viver com as pessoas, construir comunidade, estar onde a presença importa mais do que qualquer discurso.
Nos seus últimos anos, o regresso a Cucujães teve o sabor sereno de um ciclo que se fecha onde tantas vezes se abriu. Viveu os seus derradeiros dias no Lar de Santa Teresinha, em Cucujães, e ali faleceu em 4 de dezembro de 2019, com quase 90 anos de uma vida marcada pela entrega absoluta. O seu corpo foi sepultado em Loureiro, a sua terra natal — como se o mundo, afinal, tivesse decidido devolver-lhe ao ponto de partida aquilo que ele deu ao mundo inteiro.
Opinar sobre a vida do Padre António Tavares da Silva é reconhecer a força de uma vocação que atravessou fronteiras geográficas, políticas e culturais com a mesma simplicidade que atravessava o quotidiano das pessoas que servia. Ele representa um modelo de sacerdote que não se define pelos lugares por onde passou, mas pela profundidade com que esteve em cada um deles.
Num tempo em que tantos procuram projeção, ele escolheu presença. Num mundo que se apressa, ele escolheu constância. E numa sociedade que por vezes esquece o valor do serviço, ele recorda-nos — pela sua história e pela sua morte serena — que há vidas que são, simplesmente, testemunho.
E testemunhos assim não se perdem: permanecem.


     * Colaborador

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