31 Jul 2026
Padre José Manuel resume quatro décadas de sacerdócio numa ideia que transporta da família para a comunidade: “Viver é, por natureza, semear”.
Exclusivo> 40 ANOS DE SACERDÓCIO DO PADRE JOSÉ MANUEL LIMA
A diminuição da participação na catequese, a responsabilidade das famílias na transmissão da fé e a necessidade de abrir a paróquia de Oliveira de Azeméis ao trabalho com outras comunidades estiveram no centro da entrevista concedida pelo padre José Manuel Lima ao diretor do grupo Correio de Azeméis, Eduardo Costa, na Azeméis TV, no dia em que assinalou 40 anos da sua Missa Nova.
O padre José Manuel Lima estima que a percentagem de crianças que frequentam a catequese tenha diminuído significativamente nas últimas décadas. Se, no tempo do padre Albino, poderiam participar cerca de 90%, atualmente calcula que a frequência se situe entre os 40% e os 50%. São números apresentados pelo próprio pároco como estimativas, mas que traduzem uma mudança que considera incontornável.
A resposta, sustenta, não passa pela crítica às famílias que se afastaram da prática religiosa. Cabe à comunidade dar um testemunho “alegre e feliz” e criar condições para que as crianças conheçam a catequese e possam, mais tarde, fazer as suas próprias escolhas.
“Alguém tem de lhes propor”
Para o sacerdote, os pais não podem adiar indefinidamente a transmissão de valores com o argumento de que os filhos decidirão quando forem adultos. Uma escolha pressupõe conhecimento e experiência, pelo que a fé, como qualquer outra dimensão da formação, precisa de ser apresentada.
O padre José Manuel defende, contudo, que essa proposta deve respeitar a liberdade futura dos filhos. Quando estes deixam de rezar, de frequentar a Igreja ou optam por não batizar os próprios filhos, os pais devem aceitar a decisão e continuar a viver a sua fé de forma coerente.
A catequese surge, nesta perspetiva, como parte de uma educação integral que não se esgota no currículo escolar ou nos resultados individuais. O pároco alerta para uma formação excessivamente centrada na melhor nota e no percurso solitário de cada criança, considerando fundamental recuperar a dimensão comunitária e a abertura aos outros.
Paróquia deve
olhar para fora
À frente da paróquia de Oliveira de Azeméis há cerca de oito anos, o padre José Manuel recorda ter encontrado uma comunidade “viva”, “formada” e com uma estrutura pastoral consolidada pelo trabalho do padre Albino. Procurou dar continuidade a essa herança, mas também abrir a paróquia ao exterior.
Essa abertura concretiza-se na participação em estruturas da vigararia e da Diocese, na partilha de experiências com outras paróquias e nas deslocações de jovens a encontros nacionais e internacionais. O objetivo é evitar que uma comunidade organizada se feche sobre si própria e deixe de contactar com outras formas de viver a fé.
O sacerdote estende este princípio à ação social, à pastoral familiar, à catequese e à animação litúrgica. Em vez de cada paróquia procurar isoladamente as suas respostas, defende a cooperação e a circulação de pessoas, conhecimentos e experiências.
Crise de participação
ultrapassa a Igreja
O padre José Manuel relaciona a diminuição das vocações e da participação eclesial com uma tendência mais ampla para o individualismo. Na sua leitura, a dificuldade em encontrar padres, catequistas ou pessoas disponíveis para serviços religiosos tem paralelo na falta de dirigentes para coletividades e de cidadãos dispostos a participar na vida social e política.
“Quando há uma crise de vocações de padres, há também uma crise de catequistas e de pessoas disponíveis para os serviços da Igreja. Há coletividades que não têm direções porque existe um caminho muito individual. Se queremos ter festas, coletividades e vida política, todos temos de dar a nossa parte”, afirma.
Apesar do recuo da prática religiosa, não antecipa o desaparecimento do cristianismo. O futuro dependerá, defende, da capacidade de a Igreja associar a fé ao serviço do bem comum, ao compromisso comunitário e à disponibilidade para trabalhar em favor dos outros.
“ESTOU AQUI DE CORPO E ALMA” “Encontrei uma comunidade muito rica, muito formada e viva. O padre Albino esteve aqui 40 anos e fez um trabalho que mantivemos. Com a comunidade e com os órgãos vivos da paróquia, continuamos a fazer o nosso melhor. Acolheram-me muito bem e estou aqui de corpo e alma.”
Padre José Manuel Lima, pároco de Oliveira de Azeméis
“LEVEM AS CRIANÇAS À CATEQUESE” “Uma criança não nasce predeterminada para a fé, nem nasce predeterminada para o amor. Levem as crianças à catequese: essa é a proposta que faço. Não é só através do plano curricular que se educa uma criança. A educação tem de ser integral e a dimensão comunitária é hoje fundamental.”
COMO ESCOLHER O QUE NÃO SE CONHECE? “Diz-se muitas vezes que, quando forem mais velhos, escolherão o que quiserem. Mas como vão escolher uma coisa que ninguém lhes propõe? Se ninguém lhes propuser, não vão escolher algo que não sabem que existe. Alguém tem de lhes propor o caminho da fé.”
Procissões mostram uma fé popular que continua a mobilizar milhares
Durante a entrevista, Eduardo Costa chamou a atenção para a forte presença da tradição católica em Oliveira de Azeméis, visível sobretudo nas festas religiosas e nas procissões que continuam a encher as ruas das freguesias. Recordou o envolvimento das populações na preparação dos percursos, a colocação de flores e o interesse dos emigrantes que acompanham estas celebrações através das transmissões da Azeméis TV.
O padre José Manuel reconheceu que estas manifestações de religiosidade popular continuam a mobilizar milhares de pessoas, mas distinguiu essa ligação cultural e tradicional de uma participação regular na vida da Igreja. Na sua leitura, Portugal continua marcado pela tradição cristã, embora seja hoje menor o número de pessoas envolvidas na prática religiosa e no trabalho das comunidades.
UMA MINORIA NUMA MAIORIA DE TRADIÇÃO CATÓLICA “Somos uma minoria dentro desta maioria da tradição católica em Portugal. Naturalmente e tradicionalmente, Portugal é católico e cristão. Agora, a prática cristã, o envolvimento eclesial e o trabalho apostólico vão diminuindo. Mas não acredito que o cristianismo vá terminar.”.”
Padre José Manuel Lima, pároco de Oliveira de Azeméis
Breve Biografia
Natural de Vilar do Paraíso, em Vila Nova de Gaia, José Manuel Lima nasceu em 1960 e cresceu numa família de oito irmãos. Era o segundo filho mais velho e acompanhava desde criança o pai, que foi sacristão durante 55 anos. Foi nesse ambiente familiar e paroquial que começou a nascer a vocação.
Entrou no seminário de Cucujães em 1970, aos dez anos. Depois de dois anos naquela vila, prosseguiu a formação em Sernache do Bonjardim, passou pelo Convento de Cristo, em Tomar, para um ano de espiritualidade, e realizou os estudos teológicos no Seminário da Boa Nova, em Valadares. A decisão definitiva de seguir o sacerdócio e a vida missionária foi tomada em 1979. Foi ordenado padre em 1986 e celebrou a Missa Nova na terra natal.
Depois da ordenação, regressou a Sernache do Bonjardim, onde acumulou a formação de seminaristas com a docência e o apoio pastoral às paróquias da região. Em setembro de 1995 partiu para Angola, permanecendo na paróquia de Santana até ao final de 1999.
De regresso a Portugal, foi formador de estudantes de Teologia em Valadares e frequentou o curso de Comunicação Social na então Escola Superior de Jornalismo. Passou novamente pelo seminário de Cucujães e foi pároco de Vilar do Paraíso durante dez anos. Regressou a Cucujães em outubro de 2017 e, em outubro do ano seguinte, foi chamado a assumir, como administrador paroquial, a condução da paróquia de São Miguel de Oliveira de Azeméis, na sequência da saída do padre Albino.
Na entrevista, José Manuel Lima explicou que a escolha contou com a intervenção de D. António Augusto, então bispo auxiliar do Porto e responsável pela região pastoral sul, que apresentou o seu nome à Direção-Geral da Sociedade Missionária da Boa Nova. Depois de quase oito anos como administrador paroquial, foi nomeado pároco de São Miguel de Oliveira de Azeméis pela Diocese do Porto, em 13 de julho de 2026. Mantém também a ligação à Sociedade Missionária da Boa Nova e é diretor da Editorial Missões.