Os homenageados ladeados por elementos da junta de freguesia de S. Martinho da Gândara
A Junta de Freguesia de São Martinho da Gândara promoveu no dia 21 de fevereiro uma cerimónia pública para distinguir quatro figuras ligadas ao desporto, à educação e à saúde, numa tarde em que os homenageados receberam o reconhecimento da comunidade com visível comoção — em especial a professora Sónia Pereira e o treinador Bruno Amaral.
A cerimónia reuniu população e entidades locais para homenagear a atleta Carolina Martins, a professora Sónia Pereira, o treinador de futsal Bruno Amaral e o médico Américo Queirós. A abertura sublinhou que a iniciativa pretendeu reconhecer “trabalho, dedicação e espírito de missão” de quem marca a vida da freguesia, num gesto assumido como “gratidão e orgulho coletivo”.
O presidente da Junta, Fernando Lopes, explicou que os nomes distinguidos resultaram de sugestões da comunidade e que a autarquia quis assumir o princípio de agradecer em vida. “Há um dever de escutar” quando a população aponta quem merece reconhecimento, referiu o autarca, enquadrando a cerimónia como um sinal público de respeito.
O vereador da Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis, Rui Luzes Cabral, associou-se ao gesto e destacou o valor de homenagens feitas enquanto as pessoas podem recebê-las, defendendo que iniciativas do género reforçam a identidade local e a memória coletiva.
Entre os momentos mais emotivos esteve a homenagem à professora Sónia Pereira, da Escola Básica do Brejo, apresentada como docente com 17 anos de dedicação e projetos desenvolvidos com alunos. A entrada em palco foi acompanhada por uma surpresa preparada pelas crianças, com abraços, “miminhos” e um ambiente de ternura que acabou por contagiar a sala. A própria dinâmica em palco — entre risos, pedidos de fotografia e a agitação dos mais novos — evidenciou a carga emocional do momento.
Também a homenagem ao treinador Bruno Amaral, ligada ao seu percurso no futsal, teve um tom particularmente sentido. No palco, foi deixada à Junta uma lembrança de valor simbólico, descrita como um gesto de “carinho” para a casa da freguesia, num momento acompanhado por aplausos prolongados.
A encerrar o ciclo de homenagens, o médico Américo Queirós recordou o início da sua atividade em 1976 e descreveu episódios do quotidiano clínico que, segundo afirmou, lhe trouxeram “preocupações e alegrias”, com especial destaque para o vínculo criado com os doentes ao longo de décadas.
A sessão integrou ainda apontamentos musicais por jovens da freguesia e terminou em convívio, com a organização a sinalizar intenção de manter este tipo de reconhecimento comunitário.
História no consultório: “aparecem 25 pessoas… são todos de etnia cigana”
Durante a intervenção, o médico Américo Queiroz contou um episódio que guardou como exemplo de humanidade e de como pequenos gestos podem desencadear grandes reações. Relatou o caso de uma mãe de etnia cigana que lhe pediu ajuda porque o filho “estava muito mal”, mas que, após observação, concluiu tratar-se sobretudo de falta de alimentação. Disse que, na altura, pediu comida para a mãe e para a criança e ainda lhes deu uma pequena quantia. Pouco depois, contou, surgiu uma fila inesperada: “Passado meia hora aparecem lá talvez vinte e cinco pessoas… e um enfermeiro diz-me: ‘Tem ali vinte e cinco pessoas para ver’. ‘O quê?’ ‘Sim… mas são todos de etnia cigana’.”
Reconhecimento em vida
“Há uma coisa em que acredito: as pessoas devem ser reconhecidas em vida. Devemos agradecer enquanto podemos olhar olhos nos olhos e dizer obrigado. Esta cerimónia é um gesto simples, mas sentido, de gratidão da freguesia.”
— Fernando Lopes, presidente da Junta de Freguesia de São Martinho da Gândara
Coragem institucional
“Homenagear enquanto as pessoas estão com as suas capacidades e no ativo é muito bonito e exige coragem. É importante agradecer a quem faz bem à comunidade e valorizar o que é positivo nas nossas terras.”
— Rui Luzes Cabral, vereador da Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis
Educação como trabalho coletivo
“Este reconhecimento tem de ser partilhado. É dos meus alunos, das famílias e de todas as pessoas que acreditaram nos nossos projetos. Sinto genuinamente que pertenço a esta comunidade há 17 anos.”
— Sónia Pereira, professora homenageada
Reconhecimento na terra natal
“O mais importante é receber este reconhecimento em casa, das pessoas que fizeram parte da minha vida. Os atletas, a família e a comunidade ajudaram-me a construir o percurso que hoje é distinguido.”
— Bruno Amaral, treinador de futsal homenageado
Relação com os doentes
“Na minha vida de médico tive preocupações e alegrias, mas sobretudo criei muitas amizades. As pessoas passaram a ser quase a minha família e isso foi o mais importante do meu percurso.”
— Américo Queirós, médico homenageado