Silampos celebrou 75 anos de risco, inovação e resistência

Cesar

A Junta e a Assembleia de Freguesia de Cesar assinalaram o aniversário com a entrega da Medalha de Honra da Vila, Grau Ouro.

> Empresa de Cesar reuniu família, trabalhadores e convidados na comemoração do aniversário

A festa dos 75 anos da Silampos recuperou os momentos que transformaram uma pequena fábrica de louça de alumínio numa marca internacional. Perante várias gerações da família e dos trabalhadores, Aníbal Campos recordou sucessos, crises e decisões que permitiram manter a produção em Cesar.

 

A Silampos celebrou 75 anos com uma festa que juntou a família Campos, trabalhadores, representantes do Governo e das autarquias e convidados ligados ao percurso da empresa. Coube a Aníbal Campos, da administração, contar uma história feita de inovação e internacionalização, mas também de dívidas, juros elevados, exportações falhadas e investimentos realizados quando parar parecia uma possibilidade real.
A empresa nasceu em 1951, fundada por Joaquim Silva e Abílio Campos, dois jovens que se conheceram através da equipa de futebol do Cesarense. A conjugação de competências deu origem à Silva & Campos, sociedade cujo nome seria transportado para a marca Silampos: Joaquim Silva tinha experiência técnica e industrial e estava ligado ao chão de fábrica; Abílio Campos assumia uma vertente comercial e de gestão.
“Sem eles não estaríamos aqui hoje”, afirmou Aníbal Campos, filho de um dos fundadores. A homenagem foi estendida a todos os que passaram pela fábrica: “Sem a coragem dos fundadores e o empenho dos seus trabalhadores, a Silampos não seria o que é hoje.”
A produção começou pela louça de alumínio. Seria, porém, a panela de pressão a colocar a empresa nas cozinhas portuguesas e a transformar o nome Silampos numa referência nacional.

Quando a panela de pressão passou a ser uma “Silampos”
Na década de 1960, a empresa lançou a primeira panela de pressão fabricada em Portugal e teve o arrojo de recorrer à televisão para apresentar um produto ainda desconhecido de muitas famílias.
O anúncio recuperava a história da Carochinha e do João Ratão através de um filme de animação e de uma composição musical que ficaria na memória de várias gerações. A associação entre o produto e a marca tornou-se tão forte que muitos consumidores deixaram praticamente de procurar uma panela de pressão e passaram a pedir uma “panela Silampos”.
“Foi isto que lançou a marca e projetou a Silampos”, considerou Aníbal Campos.
Na década seguinte, a empresa voltou a abrir caminho com a introdução da louça de aço inoxidável no mercado português, primeiro sem fundo térmico e depois com essa tecnologia.

Dívida duplicou e foi preciso voltar à banca
Em 1978, Abílio Campos adquiriu a participação do outro sócio, num investimento de grande dimensão para a capacidade financeira da família. A operação foi realizada numa altura em que as taxas de juro rondavam os 20% e chegariam depois aos 48%, fazendo duplicar a dívida.
A procura da louça de aço inoxidável crescia, mas a Silampos produzia apenas cerca de 100 conjuntos por mês. Ao mesmo tempo, subiam os preços do cobre usado nos fundos térmicos e da solda de prata necessária ao processo de fabrico.
Uma nova máquina permitiria utilizar fundos de alumínio e aumentar a capacidade para mil conjuntos mensais. Para concretizar o investimento, a família teve de regressar ao banco e pedir novo financiamento quando a dívida anterior já se tinha agravado.
“Não era fácil. Se a dívida tinha duplicado, ainda íamos precisar de mais dinheiro para ter futuro”, recordou Aníbal Campos. A administração conseguiu convencer a banca e avançou. “Foi um risco, mas um risco calculado”, resumiu, classificando o investimento como decisivo para a sobrevivência da empresa.

O “fiasco total” que  obrigou a mudar
A primeira exportação de panelas de pressão para a Dinamarca, no início da década de 1980, revelou uma fragilidade que o sucesso em Portugal tinha escondido. Os consumidores dinamarqueses não conheciam a história da Carochinha e do João Ratão e não percebiam a presença de um rato associada a uma panela.
“Foi um fiasco total”, admitiu Aníbal Campos.
A experiência obrigou a alterar a imagem e a comunicação da Silampos. Foi então criado um gabinete de design e engenharia industrial, preparando a empresa para desenvolver produtos e marcas adequados aos diferentes mercados.
A mudança abriu caminho ao Reino Unido, onde a produção em aço inoxidável fabricada em Cesar conquistou um mercado dominado pela louça de alumínio e esmalte. Através da marca Stellar, a Silampos chegou a exportar cinco ou seis contentores por mês.
A empresa entrou igualmente nos Estados Unidos. Na Argélia, a participação numa feira originou uma primeira encomenda de oito mil panelas de pressão, quantidade que, nos anos seguintes, chegaria às 100 mil unidades.
Foram anos de forte crescimento, com prolongamento de horários e trabalho aos sábados. Aníbal Campos destacou a solidariedade então existente entre empresa e trabalhadores, num período em que a Silampos atribuiu prémios anuais e criou um fundo destinado a complementar os rendimentos dos funcionários quando chegassem à reforma.

A “pulga” que comprou o “elefante”
Outro momento decisivo surgiu quando a empresa britânica que era o principal cliente da Silampos foi colocada à venda. Perder aquele comprador representava uma ameaça e a administração decidiu avançar para a aquisição.
A operação exigiu a obtenção de “alguns milhões” junta da banca num prazo entre 24 e 48 horas e foi recebida com surpresa. “Para muita gente, era a pulga a comprar o elefante”, recordou Aníbal Campos.
A compra revelou-se importante para atravessar um período de maior dificuldade. A empresa britânica seria posteriormente vendida com lucro.
Com a globalização, grande parte da indústria transformadora desapareceu da Europa e os preços de venda baixaram. A Silampos modernizou a produção, mas recusou transferi-la para países com custos inferiores.
“Sempre recusámos a deslocalização, apesar das críticas que sofríamos”, afirmou o administrador.

 

> TRABALHADORES
Seguro de saúde deverá avançar em outubro
A Silampos pretende disponibilizar, já em outubro, um seguro de saúde a todos os trabalhadores. O anúncio foi feito por Aníbal Campos durante a festa dos 75 anos e recebido com aplausos pelos funcionários.
“Vamos fazer o possível para que seja já em outubro que todos os trabalhadores tenham à sua disposição um seguro de saúde”, declarou.
A medida será posteriormente explicada ao quadro de pessoal e permitirá que filhos e cônjuges também possam aderir em condições mais favoráveis do que as habitualmente praticadas num seguro individual.
Ao recordar o pai, Aníbal Campos apontou o respeito pelos direitos dos trabalhadores como um dos princípios deixados pelo fundador. A empresa criou também um banco individual de horas quando o modelo ainda não estava generalizado. A solução nasceu a pedido dos funcionários que, além do trabalho na fábrica, ajudavam nos terrenos agrícolas das famílias e precisavam de disponibilidade nos períodos das sementeiras e colheitas.

> DESAFIO ATUAL
“O aço paga taxas, mas a panela acabada não”
Aníbal Campos aproveitou a presença do ministro da Economia para alertar para aquilo que considera uma desigualdade nas regras europeias aplicadas à indústria.
Segundo o administrador, o aço inoxidável importado da Coreia do Sul ou do Japão está sujeito a taxas comerciais e ambientais. Porém, uma panela acabada proveniente desses países pode entrar no mercado europeu sem suportar encargos equivalentes.
Na prática, sustentou, a União Europeia encarece a matéria-prima utilizada pelas fábricas instaladas no seu território, mas não aplica as mesmas condições aos produtos que chegam já fabricados e concorrem com essas empresas.
“É um momento preocupante que podemos atravessar nos próximos tempos”, alertou, apontando o investimento como a resposta necessária para enfrentar o novo desafio.

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