9 Jun 2026
Há idosos que ficam sozinhos no hospital, sem visitas e sem retaguarda familiar. O alerta foi deixado em Oliveira de Azeméis por profissionais de saúde que acompanham diariamente pessoas mais velhas e que dizem encontrar, nos serviços, sinais de abandono, isolamento e perda de laços familiares.
O tema surgiu durante a sessão dedicada à geriatria, mas afastou-se da discussão técnica para tocar numa realidade mais dura: a forma como a sociedade trata os mais velhos quando a autonomia diminui e a dependência aumenta.
Sara Pereira, enfermeira-diretora da Unidade Local de Saúde Entre Douro e Vouga, foi uma das vozes mais diretas. “Nós vivemos todos os dias esta realidade”, afirmou, antes de lembrar que muitas pessoas continuam a olhar para a velhice como algo distante.
A responsável falou de idosos que passam pelo hospital sem a presença regular da família e recusou que a pessoa seja vista apenas como doente. Cada idoso, sublinhou, teve uma vida antes da cama hospitalar: família, trabalho, casa, relações e história.
A ideia foi retomada por Rui Luzes Cabral, vice-presidente da Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis, que descreveu a solidão de muitos idosos reduzida a “um quarto, uma mesa de cabeceira” e fotografias da família. O autarca criticou situações em que os mais velhos acabam deixados em instituições ou hospitais, sobretudo em momentos em que exigem maior presença familiar.
Rui Luzes Cabral defendeu que a sociedade tem vindo a transferir para instituições momentos que antes pertenciam à família. Nascimento, doença, envelhecimento e morte passaram, cada vez mais, para espaços formais de cuidado.
O autarca levou a reflexão para o plano pessoal: disse que não gostaria de morrer num hospital e que espera poder permanecer em casa, acompanhado pela família, “no meu lar, no meu espaço, naquilo que eu construí”.
A questão, para o vice-presidente da Câmara, não é rejeitar hospitais, lares ou respostas sociais. É impedir que essas respostas substituam completamente a presença, o afeto e a responsabilidade familiar.
Valter Amorim, presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Enfermeiros, centrou a intervenção na perda de humanismo nos cuidados. Defendeu que profissionais e famílias não podem olhar para a pessoa idosa apenas pelo diagnóstico, pela dependência ou pelo lugar que ocupa numa instituição.
O responsável deixou uma ideia clara: “Temos de voltar a ser pessoas antes de ser profissionais.” A frase foi usada para sublinhar que a dignidade não depende da idade, da autonomia ou da condição clínica.
Também Andrea Pinto, terapeuta ocupacional, reforçou que envelhecer não pode significar perder identidade. A profissional defendeu que manter rotinas, escolhas, ocupações e sentido de vida é parte essencial do cuidado. Quando uma pessoa perde propósito, disse, envelhece mais depressa.
A sessão deixou, assim, um aviso que ultrapassa os serviços de saúde: o abandono dos idosos não se combate apenas com camas, consultas ou instituições. Combate-se também com presença, tempo, responsabilidade familiar e reconhecimento da história de vida de cada pessoa.
Os profissionais de saúde relatam que o abandono nem sempre se traduz numa recusa formal da família em acompanhar o idoso. Muitas vezes aparece de forma gradual: visitas que deixam de acontecer, contactos cada vez mais raros, dificuldade em assumir decisões e ausência de retaguarda quando a pessoa perde autonomia.
Nos hospitais e nas instituições, essa ausência torna-se mais visível nos momentos de maior fragilidade: doença, dependência, preparação do regresso a casa ou fim de vida.
NÃO PENSAMOS QUE VAMOS SER IDOSOS “Nós vivemos todos os dias esta realidade. Não pensamos que vamos ser idosos. E vemos todos os dias uma quantidade enorme de idosos abandonados no hospital.” Sara Pereira, enfermeira-diretora da Unidade Local de Saúde Entre Douro e Vouga.
VOLTAR A SER PESSOAS ANTES DE PROFISSIONAIS “Nós temos de voltar a ser pessoas antes de ser profissionais. Temos de ter dignidade, sempre. A pessoa que está à nossa frente tem um nome, tem uma história, tem uma família e tem um contexto.” Valter Amorim, presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Enfermeiros.
MORRER EM CASA, NO MEU ESPAÇO “Eu não queria morrer num hospital. Espero que os meus filhos tenham a dignidade de me deixar morrer em casa, acompanhado, no meu lar, no meu espaço, naquilo que eu construí.” Rui Luzes Cabral, vice-presidente da Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis.
DAR MAIS VIDA ÀS PESSOAS “Quando envelhecemos e perdemos o propósito de vida, envelhecemos um pouco mais rápido. O nosso trabalho é dar mais vida às pessoas.” Andrea Pinto, terapeuta ocupacional.