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Correio de Azeméis

15 May 2026

Um tempo onde tudo era mais inocente

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Estudou na escola primária de Lações de Cima entre 1971 e 1974, completando assim a quarta classe.

Escola de outros tempos

Amália Tavares, uma das alunas que frequentou a escola primária de Lações de Cima na década de 70, testemunha em entrevista ao Correio de Azeméis memórias de outros tempos. Começa por relembrar o sentimento que a transporta de volta para a sala de aula com “o cheiro a giz e para o pátio da escola onde fui muito feliz”.

“A escola era um mundo de regras simples, mas muito marcantes e exigentes. O professor era uma autoridade que todos temíamos”, relembra.

Amália Tavares define este como sendo um tempo “de joelhos esfolados, mãos sujas de pó (giz e outros), e uma pressa enorme de crescer, sem sabermos que aqueles momentos de correr atrás de uma bola de trapos, ou de partilhar um lanche eram, na verdade, a definição de felicidade”.

Ler, escrever e contar

Na primária aprendiam o português, com cópias e ditados, a matemática, “com a temida tabuada na ponta da língua”, e o estudo do meio, onde aprendiam desde o corpo humano até aos rios de Portugal. 

As carteiras dos alunos eram feitas de madeira espessa, que muitas vezes continham um buraco para o tinteiro, mesmo que já não se usasse. “O quadro de ardósia, onde o giz chiava, e o mapa de Portugal pendurado na parede”.

Depois, na altura do ciclo, o mundo escolar expandia-se. Para além do português e matemática, também tinham as disciplinas de história, geografia, ciências naturais, educação visual e educação física. Já tinham vários professores.

Recreio: a liberdade pura

“O toque da campainha era o som mais feliz do dia”, recorda Amália Tavares. “O recreio era onde a ‘magia’ acontecia”, frisando que aquele era um tempo “sem ecrãs nem distrações digitais, tudo era presencial”.

Durante a hora do recreio eram várias as brincadeiras que faziam, desde a apanhada, ao saltar à corda, “com rimas que todos sabíamos de cor. Era tudo belo e especial para nós”, até às trocas de cromos, havendo negociações frenéticas para completar a caderneta do momento. 

Ao lanche, comiam o “famoso pão com manteiga, ou queijo, embrulhado em guardanapo, acompanhado por um pacote de leite, ou sumo de pacote”.

Amizades que eram feitas de presença

"As amizades eram feitas de presença física, olhares e gargalhadas reais. Não eram necessários ‘likes’. Bastava um ‘queres ir brincar?’ "

Para Amália Tavares, e para todas as crianças da altura, se as aulas eram o dever e o recreio era a liberdade, “as amizades eram o ‘pilar’ que segurava tudo”. Afirma que, naquela época, a amizade tinha uma pureza e uma intensidade muito próprias, reais. “Antes das mensagens do WhatsApp, os nossos meios de comunicação eram os papelinhos e os cadernos”.

Na primária, ter um melhor amigo era quase “um título oficial”, pois era aquela pessoa com quem combinavam sentar na mesma carteira, logo no primeiro dia. “Partilhar segredos sobre quem gostávamos, ou sobre as asneiras que fazíamos em casa”, era uma espécie de ritual de amizade, como se de um pacto de silêncio se tratasse.

Depois, no recreio, “se alguém se metesse com o nosso amigo, nós estávamos lá”, tratando-se de uma lealdade instintiva. Mas a amizade não se ficava só pela escola, também saía portão fora. “Íamos à porta de casa do amigo a gritar pelo nome dele até que a mãe aparecesse à janela”.

Os trabalhos de grupo eram “na verdade, uma boa desculpa para passarmos a tarde a jogar à bola, ou a lanchar em casa uns dos outros”.

Ritual das trocas e empréstimos

O emprestar “aquela caneta com cheiro, a afia mais moderna ou a borracha que apagava tinta”, era uma prova máxima de confiança

Para além desses empréstimos, também havia a partilha do lanche, sendo uma troca por troca. “Dás-me um bocado do teu pão, que eu dou-te uma bolacha?”.

Zangas que duravam cinco minutos

As brigas eram comuns, mas Amália relembra a capacidade de, naquela altura, terem a capacidade de curar as zangas de maneira muito rápida. 

“’Já não sou teu amigo’, dizíamos com o dedo espetado”, mas bastava o toque para o recreio seguinte para que “tudo estivesse perdoado. Não havia espaço para o rancor, nem raiva”, uma vez que a vontade de brincar era sempre maior que qualquer zanga.

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