15 May 2026
Manuel Soares transformou a profissão em paixão
Máquinas centenárias de Manuel Soares em exposição temporária
Há máquinas com mais de 150 anos, peças vindas de vários países e modelos que passaram por casas, oficinas e fábricas. Na Avenida Dr. António José de Almeida, em Oliveira de Azeméis, Manuel Soares apresenta uma exposição temporária de máquinas de costura centenárias preparada especialmente para o Mercado à Moda Antiga.
A ligação de Manuel Soares às máquinas de costura começou muito cedo, ainda em criança, quando era chamado pelos vizinhos para resolver avarias.
"Desde muito novo, as senhoras mais velhas pediam-me para ir a casa delas porque a máquina não funcionava, estava presa, e eu lá ia ver o que se passava”, recorda.
O gosto cresceu naturalmente e acabou por se transformar numa vida inteira ligada a estas máquinas. “A partir dos meus 20 anos comecei mesmo a minha vida ativa nas máquinas de costura”, conta.
Ao longo de cerca de 50 anos foi reunindo peças em feiras de antiguidades, sucateiros e mercados, construindo uma coleção que ultrapassa hoje as duas centenas de máquinas. Na exposição temporária instalada junto à Caixa Geral de Depósitos estão cerca de uma centena de exemplares.
Objetos que contam a história das casas e das fábricas
Muito antes da automatização industrial e da produção em massa moderna, a máquina de costura representou uma revolução silenciosa no quotidiano das famílias e na indústria têxtil.
Inventada durante a Revolução Industrial, a máquina de costura permitiu acelerar a confeção de roupa e reduzir o trabalho manual, entrando progressivamente nas oficinas, fábricas e também nas casas portuguesas.
Durante décadas, sobretudo ao longo do século XX, era comum existir uma máquina de costura em casa. Muitas vezes utilizada para arranjos, confeção de roupa ou complemento do rendimento familiar. A tendência foi passarem de geração em geração e ficaremm associadas à memória das mães e avós.
É precisamente essa ligação afetiva que Manuel Soares continua a encontrar nas pessoas que visitam a exposição. “Ficam encantadas. Dizem-me muitas vezes: ‘Eu tenho lá uma em casa’, ‘era da minha avó’, ‘era da minha mãe’”, conta.
Da Singer à Oliva e muitas marcas internacionais
Entre as marcas representadas surgem nomes históricos como Singer, Opel ou Oliva, esta última profundamente ligada à história industrial da região.
Fundada em São João da Madeira em 1925, a Oliva tornou-se uma das maiores referências industriais portuguesas e liderou durante décadas o mercado nacional das máquinas de costura. As máquinas Oliva, produzidas a partir da década de 1940, entraram em milhares de casas portuguesas e ajudaram a afirmar São João da Madeira como um dos grandes polos industriais do país.
Manuel Soares destaca precisamente alguns desses modelos nacionais na exposição. “Estas 45, 46, 50 e 55 são nacionais, fabrico em São João da Madeira”, explica.
Além das máquinas domésticas, o colecionador apresenta também equipamentos ligados ao setor do calçado, recordando a forte tradição industrial da região. “A indústria do calçado em Oliveira de Azeméis foi muito forte”, sublinha.
Restaurar peça a peça
As máquinas expostas foram restaurada pelo próprio Manuel Soares, num trabalho paciente e minucioso.
“Tudo isto leva meses”, explica, referindo processos como desmontagem integral, cromagem, pintura, douramento e recuperação dos decalques originais.
Cada máquina é desmontada peça a peça antes de voltar a ganhar vida. E praticamente todas continuam funcionais. “Todas as máquinas que estão aqui estão todas a trabalhar”, garante.
Para o colecionador, mais do que objetos antigos, estas peças são fragmentos vivos de história. “Estas máquinas passaram pelas mãos de muita, muita gente”, afirma.
Um museu temporário aberto à comunidade
A exposição foi preparada especialmente para o Mercado à Moda Antiga e ocupa temporariamente um espaço na Avenida Dr. António José de Almeida.
Só a montagem demorou cerca de 15 dias de trabalho. “Trouxe-as para aqui, desembalei-as, limpei-as, virei-as para um lado e para o outro, dividi qual era a melhor exposição”, conta.
Apesar do valor histórico do espólio exposto, a entrada é livre. “Qualquer pessoa entra, não paga nada, entra e sai”, refere o colecionador, deixando o convite para visitar o espaço durante os dias do Mercado à Moda Antiga… e nos dias que o antecedem.