25 Sep 2025
Opinião Saudável(mente) com a Dr.ª Fanny Martins
> Fanny Martins
Na saúde emocional, o mais difícil nem sempre é começar. Muitas vezes, o verdadeiro desafio é continuar, sobretudo quando os sintomas diminuem e começamos a sentir-nos “bem outra vez”. Quando nos sentimos frágeis, vulneráveis ou emocionalmente desorganizados, ativamos estratégias. Procuramos ajuda, iniciamos terapia, voltamos a meditar, caminhamos, escrevemos, refletimos, começamos a frequentar ginásio e até a comer mais saudável. Há um foco, uma intenção, um compromisso interno, face a uma crise, um susto, ou medo ou sentimento de desespero e desistência. O mal-estar obriga-nos a parar e olhar. E nesse processo, muitos dão passos preciosos em direção ao equilíbrio, e à saúde emocional e consequentemente física.
O problema surge quando o bem-estar regressa e a rotina se volta a instalar. Com a rotina, com a pressa, com a sensação de que o pior já passou, “baixamos a guarda”. Deixamos de aplicar as estratégias e novas práticas que, entretanto, aprendemos a aplicar e nos estavam a sustentar. Deixamos de escrever, de parar, de respirar de forma consciente. Já não ouvimos o corpo. Já não sentimos e vivemos com a mesma presença. E, sem nos darmos conta, vamos voltando ao mesmo lugar. Este ciclo é mais comum do que parece. Trata-se da nossa mente, que quer segurança e familiaridade para sobreviver, que restaura os velhos padrões porque os reconhece como seus e funcionais na lógica da sobrevivência. A mente racional convence-nos de que não precisamos mais daquilo que nos fez bem. E como o desconforto desapareceu, permitimo-nos esquecer. Esquecer que o equilíbrio emocional exige consistência e muita repetição, para que as velhas formas de pensar e de se comportar desvaneçam para dar lugar a novas. Esquecemos que o bem-estar não é um destino, mas uma prática.
A ciência confirma o que a experiência clínica já mostra há anos: manter as estratégias de autocuidado mesmo após a melhoria dos sintomas reduz significativamente o risco de recaída emocional. Terapias como a MBCT (Mindfulness-Based Cognitive Therapy), por exemplo, têm demonstrado prevenir a repetição de episódios depressivos em pessoas com histórico de recaídas (Lambert et al., Journal of Affective Disorders, 2002). A verdadeira saúde emocional começa, muitas vezes, no depois. Depois da crise. Depois da dor. É aí que testamos o nosso compromisso connosco. É aí que escolhemos, todos os dias, continuar a cuidar, mesmo quando tudo parece estar bem. Por isso, deixo-te esta reflexão: Será que estás mesmo bem, ou estás naquela fase que esqueceste o que te mantinha focada?
Lembra-te: cuidar de ti não é algo que se faz só quando dói. É um gesto diário de amor próprio, mesmo quando tudo parece calmo. Porque esquecer de te cuidares, de te amares, é, silenciosamente, voltar a adoecer. E tu mereces melhor do que sobreviver. Mereces viver! Com carinho,
Fanny Martins, Terapeuta certificada em Hipnose Clínica de crianças, adolescentes e adultos