23 Jul 2026
Opinião Ana Isabel da Costa e Silva
> Ana Isabel da Costa e Silva
Caminhar pela cidade não depende apenas das distâncias. Depende de muitos outros fatores como a topografia, o desenho, a materialidade, o estado e a continuidade dos passeios, a segurança dos atravessamentos, a existência de sombra ou de espaços para descansar.
Em Oliveira de Azeméis, a topografia é uma condição particularmente importante: há espaços da cidade onde caminhar se torna mais difícil, como por exemplo “a subida do Mercado”, e há outras onde as deslocações são mais fáceis, como por exemplo a “Avenida”. Esta característica deve ser um dado fundamental para quem regula e decide o presente e para quem planeia a cidade para o futuro.
Uma parte importante do discurso sobre a redução do automóvel nas cidades esteve associada à poluição do espaço urbano. A transformação tecnológica do setor automóvel poderá reduzir progressivamente parte desse problema, mas não resolve outra questão essencial: o espaço que o automóvel ocupa na cidade. Ainda assim, para uma população cada vez mais envelhecida, para quem tem dificuldades de locomoção ou para quem vive longe do centro, o automóvel continuará a ser um meio importante de acesso. Por isso, excluir o automóvel do espaço urbano não deverá ser entendido como a solução universal. O desafio está em encontrar o equilíbrio entre garantir a acessibilidade e não permitir que o automóvel determine, por si só, o desenho do espaço público.
Por outro lado, a discussão sobre o estacionamento na cidade não pode ser em função do número de lugares disponíveis. É necessário perceber a sua localização, o seu desenho e a relação deles com os percursos pedonais. Um parque de estacionamento bem localizado pode permitir chegar de automóvel e, a partir daí, continuar a pé. Para isso, os percursos têm de garantir segurança, proximidade, conforto, desenho claro, com capacidade para ligar diferentes partes da cidade. É precisamente por isso que a mobilidade é o tema central para o comércio local. Os estabelecimentos comerciais não dependem apenas de se conseguir estacionar à porta. Dependem das pessoas que circulam a pé e de automóvel. Sabemos que as pessoas gostam de andar a pé quando há segurança, quando sentem conforto para verem as montras, quando sabem que podem encontrar alguém conhecido para conversar ou por serem surpreendidos por alguma coisa que os faz decidir entrar numa loja sem ter planeado.
Ainda se lembram da Rua Dr. Bento Carqueja, parte do antigo traçado da Estrada Nacional EN1, quando, em tempos, era das ruas mais comerciais da cidade? Quem não se lembra da Casa Pépura, da Casa Hilário, da loja “Os Nossos Garotos”, da Drogaria do Sr. Osório? Daquele tempo, vai persistindo a Sapataria Moreira. Cada loja que fecha tem, naturalmente, razões próprias para decidir o seu encerramento. Mas quando os encerramentos se sucedem ao longo dos anos, deverá fazer pensar o poder autárquico.
Parece continuar a faltar uma visão que articule as diferentes partes da cidade e que reconheça ao mesmo tempo as suas diferenças. As entradas da cidade colocam problemas distintos e cada uma exige uma resposta própria que solucione a relação do automóvel com os percursos pedonais. Mas todas deveriam integrar uma estratégia comum.
Porque uma cidade não precisa de estar sempre a crescer para sobreviver. Só precisa de uma razão para permanecer.
* Arquiteta e docente universitária