21 Oct 2024
José Brandão de Sousa*
A faixa de pano que se pode ver na fotografia apareceu, no início do mês de maio deste ano, nas varandas do edifício Sequeira Monterroso, vulgarmente conhecido como “A Mercantil”. Nela estavam escritas, apenas, duas palavras: “OPOSIÇÃO DEMOCRÁTICA”. Tal faixa suscitou, sobretudo, nas redes sociais uma onda de rumores, uma certa agitação.
Esta faixa, lá colocada para efeitos de dramatização de um evento de comemoração do 25 de Abril pretendia, apenas, evocar outra, semelhante, que foi fixada naquelas varandas há, precisamente, 55 anos, no mês de outubro de 1969. Também, na ocasião, suscitou intenso burburinho.
Nessa altura, estava-se na situação política que se apelidou “Primavera Marcelista”. O regime fascista decidiu fazer um simulacro de eleições que parecessem mais ou menos livres. Permitiu até que a Oposição formasse umas Comissões Eleitorais e se desenvolvesse uma espécie de “campanha eleitoral”. Os movimentos (clandestinos) de Oposição ao regime, embora conscientes de que as eleições não seriam nem livres, nem justas, resolveram aproveitar a ocasião, sobretudo, para fazer de modo semilegal propaganda contra o regime do Estado Novo.
Assim, na vila de Oliveira de Azeméis, cerca de trinta corajosos cidadãos, das mais diversas profissões, formaram o comité concelhio de apoio à CDE - Comissão Democrática Eleitoral. O primeiro andar do edifício de “A Mercantil” tornou-se a sua sede de campanha eleitoral. É justo prestar homenagem ao Dr. Manuel Costa Pereira, proprietário de “A Mercantil”, que cedeu aquele espaço para o efeito.
A sede da Oposição Democrática esteve aberta e a funcionar durante menos de um mês: desde os primeiros dias de outubro até ao dia das eleições (26 do mesmo mês), quando foi encerrada.
Durante este período, na sede da Oposição registou-se uma grande atividade política. Realizavam-se as tarefas habituais de uma campanha eleitoral: redação de comunicados e panfletos, impressão e organização da sua distribuição pelo concelho; preparação de cartazes de propaganda política e sua afixação; sessões de esclarecimento e mobilização de pessoas para a execução destas tarefas.
Mas, paralelamente, durante esse mês decorreram muitas outras atividades: realização de sessões e tertúlias não só sobre política, mas sobre todos os assuntos que interessavam aos portugueses: a condição da mulher, a guerra colonial, a situação da juventude, a situação da classe operária, o problema das casas de habitação, a carestia de vida, e outros. Nestas reuniões eram distribuídos “Textos de Apoio” que os participantes, no final, levavam consigo, possibilitando que a discussão continuasse em casa, na rua, no café e no local de trabalho.
Decorriam sessões de “Canto Livre” com música de intervenção (José Afonso, Manuel Freire e Adriano Correia de Oliveira), declamação de poesia, etc. Esta dinâmica, esta movimentação de muita gente de todas as categorias sociais, de todas as profissões, de todas as idades (embora com muita predominância dos jovens) surgiu como uma oportunidade para as pessoas se reunirem, falarem e discutirem, ganhando aquilo a que, na altura, se chamava de uma “consciência política”. O que se passou no final foi o esperado por todos. As eleições foram completamente fraudulentas e o partido do governo (a União Nacional) teve uma vitória eleitoral retumbante.
Mas as eleições tiveram um outro resultado que o regime fascista não esperava: a movimentação de outubro de 69 gerou um interesse, uma procura de informação sobre política, sobre o que era a democracia, sobre a liberdade, que se tornou imparável.
No dia 26 de outubro 1969 a faixa que dizia OPOSIÇÃO DEMOCRÁTICA teve de ser retirada das varandas da Mercantil. Mas se ela desapareceu, não desapareceu a vontade da imensa gente que, a partir daquele mês, passou a querer saber mais, ser mais informada, a querer mudar o estado das coisas, a querer lutar para acabar com o fascismo.
Foram sementes que tiveram frutos e apareceram nas atividades dos alunos do Colégio, nas tertúlias oposicionistas no Café Lusitano, na atividade cultural e cívica da ARCA, na participação em organizações políticas clandestinas e culminou, com toda a energia, na grande manifestação e comício no Jardim Público, no Primeiro de Maio de 1974.
* Colaborador