11 Dec 2025
Albino Pinho*
Opinião
A nossa gastronomia, ainda que por vezes despretensiosa e sem grandes refinamentos, possui uma alma própria: é variada, saborosa e impregnada da autenticidade dos produtos da terra e das mãos experientes que lhes dão forma. Há, em cada prato bem-feito, uma memória antiga, uma simplicidade que reconforta.
Quem não acalenta o sonho de descobrir um recanto escondido, perdido numa aldeia discreta, onde a comida é farta, o vinho sincero e a conta final não causa sobressalto? E quantos, podendo, percorrem dezenas de quilómetros apenas para saborear um almoço ou jantar que lhes preenche a alma? Conheço pessoas que se gabam de listas secretas, partilhadas apenas com amigos de confiança, desses templos do bom, do barato e do abundante. Eu, comedidamente, também aprecio, de quando em quando, meter o dente aqui e ali e brindar, com parcimónia, ao néctar de Baco servido na casa.
É um prazer redescobrir os sabores da nossa cozinha tradicional — quase sempre obras de mãos femininas, dedicadas e sem formação académica, mas ousadas nas feijoadas, nas cabidelas, nos cozidos, nos assados e noutras alquimias do quotidiano. Por estas paragens encontra-se um pouco de tudo, embora raramente algo que mereça meia estrela Michelin. A qualidade de um mesmo prato pode oscilar de um dia para o outro, ao sabor da afluência e do humor da cozinha. Por vezes, os restos regressam às panelas, reciclados na feijoada ou no arroz de miúdos dos dias seguintes; até o vinho que sobra nas canecas volta discretamente ao garrafão. Moral da história: no mesmo restaurante podes muito bem pagar duas vezes pela mesma carne e pelo mesmo vinho.
Persistem ainda aquelas tascas de antigamente, onde o lápis repousa na orelha, as contas se fazem no papel e o dinheiro se guarda no bolso do avental ou numa gaveta suspeita, não vá algum fiscal das Finanças dar pelo esquema. Nestes lugares, reclamar é exercício de coragem — nunca se sabe como a coisa acaba.
Alguns estabelecimentos ganharam fama e ficaram por aí, imóveis. Passaram a tratar o cliente como rebanho, sem um simples “obrigado”, impondo tempos de espera pouco dignos, sobretudo aos fins de semana, quando a afluência, mesmo em tempos difíceis, obriga a reservar com antecedência.
Já testemunhei clientes devorarem e elogiarem o que mal merecia ser servido, com tal avidez que me pergunto o que será que comem em casa. E depois há os outros — os restaurantes dos grandes centros, destinados a carteiras mais generosas e seduzidos pelo glamour da cozinha gourmet, aspirante ao estrelato Michelin. Empregados impecavelmente apresentados, conhecedores de vinhos e produtos, servem pequenas obras de arte culinária ao centro de pratos enormes, alinhadas ao milímetro com rigor suíço, sob a luz suave das velas e ao som de música quase sussurrada. Um mundo distante das casas populares, onde, por vezes, recomenda-se levar tampões para os ouvidos.
Com a experiência que o tempo e as viagens me deram, chego à conclusão de que o melhor restaurante continua a ser o da nossa própria casa. Ainda assim, sabe bem, de quando em quando, abrir a porta e deixar que o mundo nos ofereça algo diferente.
*Colaborador