A padeira que guarda as chaves da história

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Maria Assunção é uma defensora das tradições e entende que a verdadeira essência dos festejos reside nos dias de 2 e 3 de fevereiro

> Identidade e Resistência

Maria Assunção não é apenas uma das poucas padeiras que ainda recusa a entrada de máquinas na sua produção; é também a guardiã de um legado político e social profundo em Ul.

Filha de Lídio Monteiro Bastos, figura incontornável que presidiu à comissão de festas durante décadas, Assunção cresceu nos bastidores da organização, vendo o seu pai lutar para que o São Brás não acabasse num tempo em que a fé era o único motor. Naquela época, o conceito de "mordomo" envolvia toda a freguesia: todos contribuíam equitativamente para pagar as contas, garantindo que o prestígio de Ul se mantivesse através dos grandes artistas da rádio que vinham atuar durante a tarde. Hoje, enquanto amassa o pão à mão como aprendeu aos 12 anos, Assunção olha para o cartaz moderno com uma mistura de respeito e ceticismo. Defende que a verdadeira essência da festa reside nos dias  — 2 e 3 de fevereiro — e alerta para o risco de os grandes concertos desviarem a atenção e o público dos momentos de maior devoção. Para ela, a valorização desta arte manual e do rigor das datas é o único caminho para que a alma de Ul não se perca na conveniência do calendário moderno. O legado de Lídio Monteiro Bastos "O meu falecido pai pertenceu à comissão de festas muitos anos e trouxe grandes artistas da rádio para Ul. Ele trabalhou muito, pedia de porta em porta, e a coisa que ele mais gostava era de ouvir o sermão no dia de São Brás. Houve uma altura em que não havia ninguém para organizar e pediram ao meu pai para ele voltar, só para não deixar acabar a tradição da nossa terra." O sistema dos mordomos "Antigamente não era como agora, que se dá uma esmola de dez euros. As pessoas eram todas mordomos; a Comissão fazia o valor total da festa e dividia pelo número de habitantes da freguesia. Tanto a pessoa que vivia bem como a que vivia mal, todos pagavam a sua cota por igual. Se mantivéssemos essa tradição de ser mordomo, talvez as festas tivessem mais força." O desvio da tradição "Eu acho que o São Brás é dia 2 e dia 3, calhe à segunda ou à terça. O pessoal vinha na mesma cumprir as promessas. Agora fazem-se os concertos fora do dia, ao sábado, porque as pessoas estão livres, mas isso não é o dia da festa. Os artistas atraem gente naquele momento, mas depois as pessoas vão-se embora e já não há aquele arraial de gente junta como era antigamente." O valor da arte manual "Eu aprendi a estalhar aos 12 anos e vou manter o pão à mão até fechar a porta; de máquinas nunca vou comprar. Esta arte nunca foi valorizada como devia e é por isso que os jovens não querem vir para aqui. Se dessem o valor ao trabalho que isto dá, à mão de obra de amassar e tender com as mãos, o preço era outro

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