A propósito do Cine-Teatro Caracas e o propósito da sua renovação

Ana Isabel da Costa e Silva

Ana Isabel da Costa e Silva *

No livro ‘Conversa com estudantes’, o arquiteto Louis Khan, nascido na Estónia que emigra, ainda criança, para os Estados Unidos da América, no início do século XX, referia que “quando alguém decide projetar algo para o futuro, isso pode transformar-se num episódio anedótico da história, porque será apenas o que pode ser feito no presente”1.

O Cine-Teatro Caracas, inaugurado em 1968, cujo projeto foi desenvolvido pelo arquiteto Gaspar Domingues, veio substituir o anterior ‘Avenida Cine’, inaugurado em 1947, cuja autoria esteve a cargo do arquitecto Moreira Júnior, do Porto, e do engenheiro Simões Pereira, de Coimbra. A iniciativa para a construção de ambos foi privada. E ambos não mantiveram os edifícios existentes. Em 2003, a Câmara Municipal faz a aquisição do imóvel. Após alguns anos de utilização constante, finalmente, a decisão de melhorar o Cine-Teatro foi tomada.

Se o mais importante “é termos um equipamento de qualidade que reúna condições para dar às pessoas e aos oliveirenses a cultura que merecem. Com todas as condições. Seja de segurança, seja de conforto seja até da qualidade da programação cultural”2  porque se opera, nesse caso, uma mudança drástica na imagem do edifício, em rutura com a envolvente, perdendo, inclusivamente, a oportunidade para resolver problemas urbanos existentes naquela zona? Refiro, como exemplo, a relação do renovado Cine-Teatro Caracas com o arruamento, a norte, a relação com o edifício vizinho contíguo, a sul, a relação de volumetria, a nascente, onde, atrás, permanece, injustamente, uma casa unifamiliar entrincheirada e, ainda, o problema do estacionamento, sobretudo, em dias de espetáculo.

A escolha sobre a imagem exterior do renovado Cine-Teatro Caracas prende-se com uma ideia para o futuro da Avenida António José de Almeida? 

A escolha do revestimento do edifício do renovado Cine-Teatro Caracas causa alguma perplexidade uma vez que se poderia ter optado por uma solução mais inclusiva, associada à história do edifício, em detrimento daquela mais radical e vistosa... 

A propósito deste assunto, lembrei-me de um pequeno excerto de um texto, do professor e filósofo Eduardo Lourenço, sobre o caso português, “incapazes dum esforço teórico contínuo, por uma série de contingências históricas que foram tomando o aspeto de fatalidades, afloramos apenas a epiderme da cultura. Preocupados com a exterioridade que parece convir às necessidades da ação imediata e incoerente, quando nos apercebemos dos grandes movimentos do espírito europeu, arremedamo-los de longe, sem lhes comunicar nada de valioso autenticamente nosso.”3

1  Khan, Louis. Conversa com estudantes. Barcelona: GG, 2002, p.41. 
2 “Cine-Teatro Caracas passa a chamar-se Teatro Municipal de Oliveira de Azeméis”, in Azeméis.net, Notícia de 10 novembro 2022.
3 Lourenço, Eduardo. Ver é ser visto. Fragmentos essenciais. Lisboa: Gradiva, 2021, p.33.
 * Arquiteta de Oliveira de Azeméis,
Ph.D., Master Architect. 
13 de dezembro de 2022
anadacostaesilva@correiodeazemeis.pt 

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