A propósito do nosso feriado municipal

António Magalhães

António Magalhães

A origem dos feriados municipais remonta à proclamação da República. Com apenas sete dias de vida, decreto seu de 12 de Outubro determinou quais os feriados nacionais, concedendo aos concelhos a possibilidade de escolherem um dia do ano que representasse as festas tradicionais e municipais.
Oliveira de Azeméis não tardou a decidir, optando por 24 de Junho, dia de São João, que a história nos diz ser festejado entre nós com grande entusiasmo, destacando-se as famosas cascatas, algumas movimentadas, a que os nossos Bombeiros, nascidos em 1906, deram grande incremento. 
O movimento de 28 de Maio de 1926, que estaria na origem, primeiramente da Ditadura Nacional, depois do Estado Novo, aplicou rapidamente a primeira “troika” do século XX – haveria outras no mesmo século – e pôs fim aos feriados municipais. A partir daí os autarcas portugueses lutaram tenazmente pelos seus feriados, mas só os das grandes cidades escaparam à avareza. Os pequenos concelhos tiveram de esperar, o que aconteceu ao nosso, que só o conseguiria por decreto publicado na edição do ”Diário do Governo” de 21 de Janeiro de 1970. Para que avaliem a dificuldade, o diploma tem origem em despacho conjunto do Presidente do Conselho e do Ministro do Interior. 
Os menos jovens recordarão que, chegado à presidência da nossa Câmara em 1959, o Dr. Artur Barbosa, simultaneamente presidente da Comissão de Melhoramentos de La Salette, logo iniciou uma longa e dura luta para que, correspondendo ao sentir generalizado da população, fosse feriado a segunda-feira das festas de Nossa Senhora de La Salette.
Lamentava frequentemente que só os funcionários públicos e da autarquia estivessem proibidos de saborear a merenda no histórico Monte dos Crastos, convertido por uma geração inesquecível de oliveirenses no nosso Parque. Demorou onze anos a luta, sendo minha opinião que para a concessão terá sido decisiva a presença do Dr. Artur Barbosa como deputado da Assembleia Nacional e a conhecida proximidade entre o Dr. Albino dos Reis e o Doutor Marcelo Caetano. 
Segundo leio no “Correio de Azeméis”, e a propósito das celebrações do 38.º aniversário da nossa cidade, foi abordada a ideia de transferir o feriado municipal para 16 de Maio. Um “fogacho” lançado não sei por quem, mas certamente por quem não avalia a dimensão da responsabilidade de quem tem de decidir em matéria de tamanha sensibilidade.
Prudentemente, sensatamente, os presidentes da Câmara e da Assembleia Municipal lançaram água na fervura, afirmando que a matéria não ocupa lugar na agenda… onde todos sabemos habitarem temas de incomparável importância. Congratulemo-nos.
Sabe-se que algumas das festas tradicionais portuguesas, e não só as nossas, vem perdendo importância. É um problema que tem muitas origens, mas na altura em que foi instituído o feriado as festas em honra de Nossa Senhora de La Salette apareciam nos roteiros turísticos como das “mais famosas romarias da Beira Litoral”. Aqui vinham romeiros de toda a parte, os nossos emigrantes regressavam, ao coreto subiam as mais famosas bandas, com destaque, por exemplo, para a Guarda Nacional Republicana. Esquecer tudo isto será impiedosa afronta à memória de tantos e tantos que se envolveram, ao longo de décadas, no sonho do inesquecível oliveirense Domingos Costa.
A terminar, uma opinião pessoal. Vale o que vale. 
Se alguma vez fosse colocada em discussão séria, o que não é o caso, a mudança do feriado municipal, a data de 5 de Janeiro, momento da criação do concelho, sobrepor-se-ia, a longa distância, a 16 de Maio.
Talvez valha a pena reler José António Gomes Leite Rebelo, Visconde de Santa Maria de Arrifana, obreiro dos “Anais do Município”, saídos dos prelos em 1909, historiador das lutas travadas com os poderosos Senhores das Terras da Feira, impiedosos adversários que repetidamente se bateram para que não subtraíssem aos vastos domínios a parcela de terreno que, desde 1799, é o nosso concelho.
(Escrito de acordo  com a anterior ortografia)

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