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Correio de Azeméis

23 Dec 2025

A suspensão do Natal na escola: o risco ético de uma época que esquece

Carlos Costa Gomes

 A questão surgiu, quando numa Escola de Pinhal Novo, por uma questão de “neutralidade”, decidiu não festejar as tradições de Natal. Mas esta decisão não deixa de levantar alguma perplexidade e um problema mais profundo, quase silencioso: o perigo do esquecimento. 

1. Poderá existir alguma compressividade, que é a de proteger a diversidade e evitar que alguma criança se sinta excluída, mas esta decisão levanta também um desafio ético, menos visível, que para além de também excluir corre o risco do esquecimento.

2. A pluralidade não se constrói apagando símbolos ou tradições. Constrói-se aprendendo a compreendê-los ética e socialmente. 

3. O Natal, ainda que de cariz religioso cristão, não é apenas uma celebração religiosa. O Natal é parte da nossa história cultural: está presente na música, na literatura, nas artes, nas tradições familiares e nos valores de solidariedade que atravessam a nossa sociedade. 

4. Quando a escola evita totalmente qualquer referência a esta tradição, corre o risco ético de criar um vazio cultural e um esvaziamento da pluralidade, e perde a oportunidade de promover aprendizagem, o diálogo e reconhecimento mútuo. 

5. A neutralidade não exige silêncio; exige que se seja justo. Por isso, a neutralidade não é apagar tradições, mas explicá-las e ensiná-las sem doutrinar. 

6. Quando as crianças aprendem o significado cultural do Natal estão a ser educadas para compreender a diversidade do mundo. Não é excluir o Natal que se promove a diversidade, pelo contrário, é integrá-lo que se promove o direito à diferença.

6. O risco ético da época que esquece, é o de uma escola que não falando de tradições pode, com ou sem intenção, contribuir para uma forma mais subtil de empobrecimento: o esquecimento de que somos seres com biografia histórica. E quando a sociedade esquece a sua narrativa, fragmenta-se. Como escreveu Arendt, o que nos liga não é apenas a lei, mas o mundo comum que partilhamos — um mundo feito de histórias, memórias, costumes e símbolos. Sem isso, resta apenas o procedural, e o procedural não aquece o coração humano.
Estão mal e é eticamente questionável as escolas que por questão de neutralidade negam, precisamente a o que querem defender – a diversidade.
* Presidente do Centro
 de Estudos de Bioética

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