A velocidade e o desenho urbano

Ana Isabel da Costa e Silva

Ana Isabel da Costa e Silva

A edição desta semana do Expresso dedica as páginas centrais ao tema da mobilidade. Os números lançados na notícia intitulada “A cada três dias, um peão morre atropelado” causam perplexidade. Os factos são os seguintes: “mais de 40% dos atropelamentos são na passadeira; o risco de morrer atropelado a 50km/h chega aos 60%; Portugal é o país da Europa Ocidental com mais mortes de peões.”

Na mesma notícia pode ler-se a opinião de Pedro Homem Gouveia, coordenador do Plano de Acessibilidade pedonal de Lisboa onde revela que “os atropelamentos em meio urbano são um problema de saúde pública com solução conhecida”. Para isso é necessário a redução efetiva da velocidade. 

Os concelhos com maior taxa de atropelamentos são Porto, Lisboa e, em terceiro lugar, a vizinha São João da Madeira. A autarquia de São João da Madeira “atribui os números, em parte, às avenidas mais largas, que potenciam a velocidade”. E reparem, a introdução de rotundas, muitas das quais sem qualquer qualidade de desenho, implantadas em locais com espaço reduzido para o seu funcionamento, introduzem variáveis que nada abonam para a condução tranquila e responsável.

Com o exemplo de São João da Madeira, porque se insiste em avenidas e rotundas mal desenhadas em Oliveira de Azeméis? Porque se constrói cidade com roturas fortíssimas da malha urbana?

A malha urbana de uma cidade apoia-se numa rede de ruas, avenidas, vielas e travessas que encontram praças, jardins ou pequenas pracetas que conferem identidade e são habitualmente utilizadas pelos peões para permanecer.

Em cidades de dimensão, relativamente, reduzida, como é o caso de Oliveira de Azeméis, a qualidade do desenho do espaço público é a única solução para aumentar a sua vitalidade. Mas para isso o desenho urbano deve privilegiar a escala humana e a mobilidade suave, dar ao peão o conforto necessário para sentir vontade de utilizar o espaço urbano a pé, deixando o velho hábito de ir de carro a qualquer sítio. 

A qualidade do dia-a-dia, nomeadamente ter locais para estacionar, ter passeios tratados e seguros, ter uma cidade segura sem possibilidade de encontrar viaturas em excesso de velocidade ou sem respeito pelas regras de segurança rodoviária, é um dos fatores decisivos para quem procura um lugar para viver. 

Recorrer a um desenho urbano que dá maior preponderância ao automóvel, como está a aparecer na Avenida Ernesto Pinto Basto, recorrendo a um desenho de uma rotunda, no mínimo, estranho, é um sinal de desatenção da cidade para com aqueles que tanto precisam do espaço público para sociabilizarem, sobretudo as novas gerações como também as gerações mais idosas. 
  * Arquiteta de Oliveira de Azeméis, Ph.D., Master Architect. 
anadacostaesilva@correiodeazemeis.pt 

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