Abril é o futuro

Helena Terra Opinião

> Helena Terra

No passado sábado, como vem sendo hábito, estive presente num almoço comemorativo do 25 de Abril de 74. Estive lá de corpo e alma porque só assim se está por inteiro.
Estiveram presentes mais de uma centena de pessoas que, o que têm de comum é o facto de amarem a Liberdade, defenderem a Democracia e, de forma nenhuma, quererem recuar ao dia 24 de abril de 74, nem a nenhum dos 48 anos que antecederam esse dia.
Gente de várias idades, com as mais diversas experiências de vida, mas todas com vida e com experiência. Não foi um almoço partidário. Nunca foi um almoço partidário, apesar de terem estado presentes militantes de vários partidos.
Ao longo dos anos em que este almoço tem acontecido, sempre assim foi. É um convívio despretensioso, de gente sem qualquer ambição que não seja a de celebrar a liberdade e a democracia e, nesta altura, cada vez mais, deixar testemunho comparativo, que é sempre a melhor forma de levar alguém a fazer opções, entre a portugalidade da ditadura e a portugalidade da liberdade e da democracia.
Na nossa vida, em geral, nunca podemos dar nada como adquirido ou facto consumado. A liberdade é a seiva que alimenta a democracia. E tal como no mundo da biologia vegetal, se falta algum dos nutrientes que constituem a seiva, a planta começa por murchar e morre. E, portanto, é necessário tratarmos bem a nossa democracia e a seiva que a alimenta. Neste jardim à beira-mar plantado a que chamamos Portugal, todos somos jardineiros e obreiros imprescindíveis. Ninguém pode ser dispensado, nem se dispensar.
Foi uma satisfação ver alguns sub trinta. Ver alguns menores de idade, porque esta é a franja de cidadãos mais desprotegida e mais permeável ao discurso tipo fast food, que até parece ser agradável de ouvir, desde logo porque é gritado de todas as formas e feitios, que está acessível em todas as “ferramentas” usadas e apetecíveis por essa faixa etária, que não obriga a questionar, nem a pensar e promete um país perfeito, com uma mão cheia de nada e um discurso oco de um homem só, com um conjunto de seguidores que o idolatram, e que praticam o seguidismo crédulo, submisso, obediente e conformista e que apenas têm um papel de repetidores.
Nenhuma falácia, ainda que repetida à exaustão, se transforma em verdade, mas consegue persuadir, sem destapar o engano, e daí resulta a adesão fácil.
Gostava de ter a idade de alguns com quem estive neste almoço, mas sem prescindir da experiência que adquiri porque nasci antes de setenta e quatro e porque tive a felicidade de aprender o verdadeiro valor da Liberdade, quando jovem saí da terra que é a minha, não porque nasci lá, mas porque é aquela da qual me continuo a sentir pertença e cheguei a Coimbra. Esta foi a cidade me abriu horizontes ilimitados e me permitiu criar a verdadeira consciência política que tenho hoje. Coimbra era um ninho de liberdade, de criação de luta estudantil e de tantas, tantas outras coisas importantes que não só a Universidade, a faculdade de Direito, a estátua do D. Dinis e a do D. João III, o Penedo da saudade, as capas negras, a Sé velha, o fado, o arco de Almedina …
Cedo me motivaram as lutas académicas da época que me deixaram grandes lições de democracia…
Temos de garantir que ninguém mais fechará as portas que abril abriu!
 

* Advogada
 

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