21 Nov 2025
Entrevistas - Oliveirenses com História
António Magalhães entrevistado por Eduardo Costa
Dois padres, duas marcas indeléveis
Em entrevista à AzeméisTV, António Magalhães evocou de forma emocionada duas figuras maiores da história recente de Macinhata da Seixa: o padre Manuel Pereira Reis e o padre Manuel Pires Bastos. Cada um, à sua maneira, transformou a freguesia, deixando obras — materiais ou culturais — que perduram até hoje.
Sobre o padre Manuel Pereira Reis, o professor António Magalhães descreve-o como pertencente a “uma geração de padres que já não existe, já não se fabrica daquilo”. Lembrou a coragem com que iniciou a obra social que marcaria a freguesia, num tempo em que quase nada existia para apoiar crianças, famílias e idosos. “Quando ele lançou esse sonho, consideravam isso o sonho de um louco”, afirmou, sublinhando que na época “não havia indústria no concelho” e que os recursos eram escassos.
Numa conversa com o jornalista Eduardo Costa, o professor recorda também a absoluta generosidade do sacerdote: “O Padre Reis nunca recebeu um tostão da oblata… entregava-o sempre à paróquia”. E ressalta o espírito de sacrifício: “Era mesmo uma boa alma”.
A construção do centro paroquial — hoje uma das maiores referências sociais do concelho — nasceu, conta Magalhães, em condições adversas: falências de empreiteiros, falta de recursos e pressão dos prazos. O professor recorda o episódio em que ambos se deslocaram a Lisboa para pedir apoio financeiro ao então secretário de Estado Luís Marques Mendes: “Ele pediu 10 mil contos… conseguiu 9 mil”. A determinação do padre era tal que, durante a audiência, ainda acrescentou: “Olhe, também são precisas cadeiras”.
O padre Manuel Pires Bastos deixou, por sua vez, uma obra diferente: cultura, educação e humanidade. Magalhães recorda-o como “um homem invulgarmente inteligente”, com múltiplos talentos e uma energia contagiante. “Ele era pianista, era um historiador… no seminário já compunha peças de teatro.” Acima de tudo, foi um extraordinário dinamizador cultural e educativo: “Não deixou paredes, mas deixou a promoção cultural de Macinhata e das pessoas”.
O padre Bastos procurava jovens com talento e motivava-os a estudar num tempo em que a escolaridade raramente passava da 4ª classe. “Descobria um aluno que tinha miolos e a fraqueza material não podia ser obstáculo”, lembra o professor, sublinhando o impacto que teve nas vidas de dezenas de crianças que, graças a essa orientação, seguiram caminhos académicos e profissionais antes impensáveis.
O professor Magalhães destacou também o total desprendimento material do sacerdote: “Eu já disse aos meus sobrinhos: ser sobrinho do padre é bom, mas não é nada. Eu não tenho nada para lhes deixar porque nada é meu.”
Com nostalgia, o professor constata que tanto o padre Reis como o padre Bastos foram “os últimos párocos de Macinhata” — no sentido de viverem na freguesia, conhecerem profundamente as pessoas e participarem na vida comunitária. “Hoje não há ligação… não estão próximos do povo”, sublinha, comparando com a dinâmica intensa das décadas em que aqueles sacerdotes marcaram gerações.
António Magalhães afirma sentir que está a cumprir “um dever de gratidão” para com dois homens que considera ímpares e que contribuíram decisivamente para a identidade e desenvolvimento da freguesia.