Apaixona-te por ti

Opinião

Fanny Martins*

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Fevereiro fala-nos de jantares apaixonados e de amor. De vínculos, de relações, de encontros. Mas raramente nos convida a refletir sobre a relação mais duradoura e determinante da nossa vida: a relação connosco próprios.
Apaixonarmo-nos por nós é um gesto de autonomia e maturidade emocional. É escolher tratarmo-nos com a mesma atenção, respeito e cuidado que tantas vezes oferecemos a quem amamos. Mas como desenvolvemos este amor ao EU. Autoamor está longe de ser sentirmo-nos bem todos os dias, felizes e gratos constantemente com a vida que temos. Aprendemos a amarmo-nos a nós próprios exatamente da mesma forma que aprendemos a amar os outros, isto é, pela experiência. Aprendemos pelo modo como fomos tratados, escutados, respeitados. No início, o amor-próprio constrói-se a partir do olhar do outro, dos cuidadores, das referências, das relações que nos ensinaram o que era ser digno de atenção e cuidado. Mais tarde, na vida adulta, cabe-nos reaprender. Questionar padrões antigos, substituir a exigência pela compreensão e criar uma nova forma de relação interna, mais empática, consciente e mais segura. Amarmo-nos passa, muitas vezes, por desaprender aquilo que nos afastou de nós e do nosso bem-estar. É permanecermos presentes mesmo quando falhamos, quando erramos, quando não correspondemos às nossas próprias expectativas. É aprender a falar connosco com mais gentileza do que julgamento. A reconhecer limites sem culpa. A acolher fragilidades sem vergonha. Aceitarmos a nossa vulnerabilidade e mesmo assim sentir amor.
A ciência confirma a importância desta relação interna. Estudos desenvolvidos por Kristin Neff, investigadora pioneira na área da autocompaixão, demonstram que pessoas com uma relação interna mais compassiva apresentam níveis mais baixos de ansiedade e depressão, maior regulação emocional e maior resiliência perante a adversidade (Neff, Self-Compassion: An Alternative Conceptualization of a Healthy Attitude Toward Oneself, 2003). Ou seja, a forma como nos tratamos internamente influencia diretamente a nossa saúde mental e emocional. Apaixonarmo-nos por nós não acontece de um dia para o outro, nem é um estado permanente. Há dias em que gostamos mais de nós e outros em que esse encontro é mais difícil e está tudo bem, porque isso faz parte do processo. O autoamor constrói-se na repetição de pequenos gestos. Na forma como escolhemos começar o dia, no descanso que nos permitimos sem culpa, na coragem de pedir ajuda, na decisão consciente de não nos abandonarmos mesmo quando algo dói ou fizemos algo de menos bom. Não é sobre perfeição, é sobre presença consciente. É escolher ficar, mesmo quando a vontade é fugir de nós.
Percebe que quando não te escolhes e priorizas, quando vives numa constante autoexigência ou autocrítica, crias um ambiente interno muito duro e hostil. E nenhum ser humano floresce num lugar onde se sente constantemente atacado, mesmo quando esse lugar é criado por ele. E de forma mágica e até incompreensível, percebe que quanto mais saudável é a relação que tens contigo, mais saudáveis se tornam também as relações que tens com os outros. O autoamor não nos isola. Muito pelo contrário, ensina-nos a amar sem dependência, sem medo e sem perda de identidade.
Por isso neste mês deixo-te um convite diferente. Não celebres apenas o amor romântico, celebra e inicia uma relação essencial, a relação contigo. Porque quando te apaixonas por ti, deixas de te abandonar. Apaixona-te por ti, porque és a pessoa mais importante da tua vida. 
*Terapeuta formada em Hipnose Clínica, Master em Trauma e Psicodrama para crianças, adolescentes e adultos

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